quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Relatório sobre o formato de preservação dos filmes do curso de cinema e audiovisual da UFF

Este relatório foi produzido a partir da criação da Comissão de Preservação do Departamento de Cinema e Vídeo da Universidade Federal Fluminense e movido por mais dúvidas do que certezas. Espero que seja útil para outras pessoas e que fomente mais discussão e colaborações.


RELATÓRIO SOBRE O FORMATO DE PRESERVAÇÃO DOS FILMES DO CURSO DE CINEMA E AUDIOVISUAL DA UFF.

Prof. Rafael de Luna Freire, 10 de junho de 2013.

INTRODUÇÃO
No dia 28 de maio de 2013, reuniram-se os professores Rafael de Luna Freire, Fernando Morais, Cezar Migliorin e Fabián Nuñez para tratar de um projeto de preservação dos filmes realizados pelos alunos do curso.
Entre outras questões, permaneceu a dúvida sobre quais seriam os padrões a serem exigidos para o arquivo a ser entregue com a versão final das produções para UFF a serem preservadas como matrizes digitais.
Uma questão que se colocou naquele momento seria a se o codec h.264 poderia ser definido como o padrão estabelecido. Fiquei encarregado de realizar uma pesquisa a esse respeito e o resultado dela está nesse relatório.

AVALIAÇÕES SOBRE CODEC E FORMATO DE ARQUIVO
Expus as minhas dúvidas em relação ao formato dos arquivos dos filmes da UFF a serem utilizados como matrizes de preservação e recebi vários comentários na lista da AMIA (Association of Moving Image Archivists). Informei que estávamos pensando em padronizar a entrega dos arquivos no codec h.264 e perguntei o que os membros da lista achavam disso. Houve um produtivo debate, mas grande divergência de opiniões e sugestões.
Apesar de ser muito utilizado, Peter Oreckinto sugeriu ficar longe do h.264 por utilizar alta compressão. Segundo Rod Butler, no National Film and Sound Archive (Austrália), esse codec não é utilizado para fins de preservação. Apesar de ser possível criar arquivos h.264 sem compressão, isso é raramente é feito. O arquivo australiano utiliza JPEG2000, com bit rate variável (50 e 100 MB/s). Esses arquivos são encapsulados em .MFX e as trilhas sonoras digitalizadas em .WAV. É importante lembrar que esse arquivo lida com longas-metragens, sendo a cinemateca nacional da Austrália.
Já Andrea Dunlap (Makani Power) disse estar tendo bons resultados com filmes em h.264, por ser um codec comum, o que lhe permitirá no futuro ter muitas opções para ler os arquivos.
Leo Enticknap, do Institute of Communications Studies, lembrou que o ideal é ter a menor mudança possível entre o material feito e o material preservado. O formato do arquivo vai depender do formato de origem. Leo disse que seus estudantes geralmente fazem seus projetos finais em câmeras DSLRs conectados por HDMI em gravadores HDD que salvam o material bruto em arquivos h.264. A pós-produção é feita geralmente em combinação de Avid Media Composer e Adobe After Effects. No momento eles pedem o arquivo final em Blu-Ray, mas os alunos também podem entregar os resultados em outros formatos (DVD, DCDM ou DCP) se for necessário para inscrição em festivais.
Portanto, há muitas opções para a escolha do formato, variando de algumas que vão consumir muito espaço, mas de maior qualidade e que são mais seguras de um ponto de vista do software (por exemplo, AVI sem compressão), para algumas que são menores, mas cuja qualidade da imagem e da compatibilidade do software são comprometidas (p.e. uma imagem ISO de Blu-Ray).
Diante da minha observação de que não produzimos tantos filmes por ano e que o volume de dados a serem armazenados não seria nosso principal problema, Leo Enticknap respondeu que optando pelo AVI sem-compressão haveria duas vantagens: não introduzir “ruídos digitais” resultantes da transcodificação de dois formatos de vídeo comprimidos, e porque seu arquivo não seria comprimido usando um codec proprietário. Desse modo, à princípio você estaria mais protegido no futuro.
O maior problema com arquivos não comprimidos é o seu tamanho. Para NTSC em RGB não comprimido, isso seria algo em torno de 110GB por hora, que pode chegar a quase 1TB em resolução 1980p. O h.264, embora vastamente utilizado, necessita de um software proprietário para codificar e decodificar, e utiliza grande compressão.
Por fim, Leo recomenda que talvez o melhor seja fazer uma matemática de qual é o volume de dados que seriam gerados usando tanto arquivos não-comprimidos quanto h.264 (com um perfil, nível e bitrate adequados para o seu uso), e avaliar os custos do sua mídia preferida para armazenamento, tendo em conta os gastos regulares para testes e migrações de mídia que serão necessários dali em diante.
Dave Rice escreveu esclarecendo que o h.264 pode ser usado com ou sem compressão. Certamente o h.264 comprimido é mais utilizado, mas ele pode ser encodado com padrões iguais aos do JPEG2000, FFV1, HUFFYUV e outros codecs sem compressão. E embora o h.264 seja proprietário, o software para codificado e decodifica-lo não precisa ser (um deles é o x264, lançado com licença do GPL GNU).
Para fins de esclarecimento, Josef Marc lembrou que a escolha de um codec (como h.264) é inútil se o formato de arquivo (wrapper) se tornar ilegível. O SMPTE sugere o .MXF e .AXF. A Apple possui o .MOV. A Microsoft meio que possui o .AVI.
O codec controla a qualidade do vídeo. O formato (wrapper) controla a legibilidade.
Ele lembrou que o h.264 é a alternativa mais comum hoje em dia a outros sem-compressão, como JPEG2000, ProRes, DPX, DNxHD etc.
Sua opção pessoal seria o ffmpeg-jpeg2000-mxf. Ou seja, FFMPEG como software, JPEG2000 como codec, e .MXF como formato.
Sua opção seguinte seria HEVC (software), h.264 (codec), .MXF (formato).
Jim Lindner defendeu o formato AVI por ser utilizado pelo National Archives and Records Administration (NARA), e por ser um dos primeiros formatos de vídeo popularizados de graça por uma grande empresa (Microsoft) e por muito provavelmente ainda poder ser lido daqui a 20 ou 40 anos.
Lindner lembrou que diferentemente do formato (que não afeta o audiovisual em si), o codec está relacionado com ele, mas não com o formato que o encapsula. Segundo ele, só existem 6 codecs de vídeo sem-compressão atualmente: Uncompressed (mais comum); JPEG2000 (DCI e Library of Congress); ffmpeg vc-1 (fonte nova e aberta); H.264 lossless profiles (rara); AVC-Intra (mais rara); Dirac (BBC/mais rara ainda).

NO BRASIL
Ao enviar o mesmo e-mail para a lista da Associação Brasileira de Preservação Audiovisual (ABPA), Marco Dreer apontou que essa questão foi muito debatida nos encontros internacionais que ele participou. Afirmou que:

 “O MJPEG2000 em tese é o formato mais recomendável, principalmente pelo fato de operar uma compressão lossless (sem perda). No entanto, ainda que seja um formato aberto e ISO, ele é pouco amigável, requer investimentos altos em hardware e software, não sendo possível rodá-lo em plataformas mais baratas e populares. Isso gerou um grande debate no congresso, porque, se por um lado a Library of Congress defendia a adoção do MJPEG2000 (encapsulado em um arquivo MXF), as instituições menores (incluindo a minha, na ocasião) argumentavam que essa era uma solução fora da realidade da ampla maioria dos arquivos, em função dos investimentos necessários.”

Eduardo Paiva, da Unicamp, afirmou que em sua instituição eles armazenam a versão final em h.264, mas a edição é feita no formato nativo .MOV ou .AVI. “Editar em h.264, mesmo com a conversão do adobe ou do final cut, acaba por ser muito demorado.”
Marco Dreer já havia apontado que:
o h.264 não costuma ser o codec ideal para edição, eventualmente precisando ser convertido (é o que acontece na plataforma Final Cut, por exemplo). Mas se for somente para armazenar o material final, já editado, o h.264 talvez seja o codec mais adequado mesmo, para o caso da UFF.”
Marco lembrou que além do codec, deve-se estabelecer o “formato de arquivo” (wrapper) (AVI, MOV, MPEG, MXF etc.), uma taxa de bits fixa (que determina a qualidade do arquivo de vídeo), além de um esquema mínimo de metadados.
Ariane Cristina Gervásio informou que na TV UFMG os arquivos digitais são armazenados em  formato .MP4 ( H.264 - NTSC DV Alta Qualidade ) 

OS FILMES DA UFF
Diante dessas questões, achei que as definições a respeito do padrão final de entrega dos arquivos só poderia ser feita conhecendo melhor os formatos utilizados durante o processo de produção. Agradeço às respostas dos professores Nina, Isaac, Moreno e Cezar ao questionário que enviei. Suas respostas foram condensadas abaixo.
Nas produções da UFF, as câmeras mais utilizadas são Canon 5-D Mark II, que filma em 1920x1080, em 24 ou 30 fps. O formato nativo dela é .MOV e o compressor é o h.264.
Outras câmeras utilizadas são a Canon T3i e Sony HVX-200, embora muitos alunos usem suas próprias câmeras HDSRL.
A maior parte dos filmes usam cartão Compact Flash/h.264. Outras utilizam cartão SD classe 10, cartão P2, e fitas DVCPRO.
Além do .MOV, outro formato recorrente é .MP4.
Os filmes são editados em Final Cut e Adobe Premiere. Conforme Isaac, “no caso do Final Cut é preciso que os arquivos nativos sejam convertidos para outro formato, geralmente .MPEG2 - o Premiere faz leitura de .MOV sem conversão. A finalização, no entanto, pode variar, mas a tendência é que eles sejam exportados em HD 1920x1080 utilizando o h.264, o arquivo de saída pode ser também o .MPEG2 ou .AVI.”
Segundo Cezar, os arquivos são geralmente exportados em .MPEG4 h.264 e .MOV.
Sobre o envio para seleção, os festivais recomendam e aceitam os mais diferentes formatos, dependendo do padrão de exibição.
Conforme Moreno, para os festivais que ele envia, os filmes são mandados para seleção em .AVI legendados. Para exibição, a cópia pode ser em Blu-Ray ou Betacam digital ou analógica. “Outros ainda deixam a opção de enviar em formato de DVCam, DCP, Blu-ray e HDCAM.”

CONCLUSÃO
Acredito que seja preciso levar as questões acima em consideração e que a definição sobre o padrão a ser adotada seja tomada por um grupo amplo de professores e funcionários, uma vez que a melhor opção sobre uma decisão tão difícil é dividir as responsabilidades sobre ela.
Creio que esse relatório pode ser enviado a profissionais da indústria cinematográfica e de tecnologia da informação para que eles também possam opinar sobre as nossas opções.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Filmes de família

A questão da preservação dos "filmes de família" (home movies) tem ganho força no Brasil nos últimos tempos. Essa discussão chega inclusive à academia, acompanhando talvez a popularidade do tema e conceito de "filmes órfãos" (orphans film) nos EUA. Mas esse tema não é "hot topic" só na América, como também na Europa, já há algum tempo. Se o tema do Encontro da SOCINE (Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual) deste ano, encerrado no dia 11 de outubro, na Unisul (SC), foi a "Sobrevivência das imagens", um dos palestrantes convidados foi o francês Roger Odin, um dos principais estudiosos dos filmes de família.
Nesse sentido, uma ótima notícia foi enviada pelo amigo José Quental, doutorando em Paris. No dia 19 de outubro ocorrerá na capital francesa o quarto Home Movie Day Paris. Nesta edição, o arquivo convidado para apresentar seu acervo num programa especial foi a Cinemateca do Museu de Arte do Rio de Janeiro. A sessão será apresentada pelo próprio Quental. Veja aqui a programação.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Oficinas técnicas de preservação e tratamento arquivístico de documentos audiovisuais



OFICINAS TÉCNICAS DE PRESERVAÇÃO E TRATAMENTO ARQUIVÍSTICO DE DOCUMENTOS AUDIOVISUAIS NO ARQUIVO NACIONAL
Inscrições abertas de 16 de setembro a 20 de outubro
Ementa: O cinema é uma manifestação cultural e um documento/testemunho privilegiado da História desde o final do século XIX. Neste ano, o REcine oferece duas oficinas que abordam os conceitos básicos de preservação e tratamento arquivístico do documento audiovisual, tais como a constituição de acervos e os processos de documentar e conservar os suportes das obras cinematográficas. Através de atividades teóricas e práticas, serão enfatizados os aspectos técnicos, teóricos e humanos da salvaguarda, processamento técnico e acesso a este tipo de acervo. O REcine busca assim contribuir para o aperfeiçoamento das práticas referentes à conservação de acervos audiovisuais.
Público-alvo: Arquivistas, cineastas, documentalistas, estudantes, historiadores, pesquisadores, conservadores e demais profissionais ligados à área.
Certificado de participação: serão emitidos aos participantes que tiverem pelo menos 75% de frequência.
Importante: O candidato deverá escolher apenas uma das oficinas, não sendo permitido a inscrição nas duas.
OFICINA 1: PRESERVAÇÃO DE MATERIAIS AUDIOVISUAIS
Datas: 26 a 28 de novembro (terça, quarta e quinta-feira)
Duração e carga horária: 18 horas
Horário: das 9h às 12h e das 14h às 17h
Local: Arquivo Nacional – Praça da República, 173, Centro, Rio de Janeiro. As aulas serão ministradas no miniauditório e em salas de trabalho.
Orientadores: Mauro Domingues e Fátima Taranto
Vagas: 12
Conteúdo programático:
MANHÃ
TARDE
Noções básicas da preservação de películas cinematográficas
Palestra REcine
Visita guiada às salas de trabalho e depósitos
Palestra REcine
Atividade prática
Palestra REcine
OFICINA 2: TRATAMENTO ARQUIVÍSTICO DE IMAGENS EM MOVIMENTO
Datas: 28 e 29 de novembro (quinta e sexta-feira)
Duração e carga horária: 12 horas
Horário: das 9h às 12h e das 14h às 17h
Local: Arquivo Nacional – Praça da República, 173, Centro, Rio de Janeiro. As aulas serão ministradas no miniauditório e em salas de trabalho.
Orientadores: Marcelo Siqueira e Antonio Laurindo
Vagas: 20
Conteúdo programático:
MANHÃ
TARDE
Apresentação e distribuição de material e conceitos de arquivo
Palestra REcine
Atividade prática
Palestra REcine

Informações:
E-mails: recine@arquivonacional.gov.br e recine.rio@gmail.com
Telefones: (21) 2179-1273 e 2220-9800

http://www.recine.com.br/2013/oficina2.php