Blog com artigos técnicos, teóricos, históricos e políticos, em português, sobre a preservação das imagens em movimento.
domingo, 27 de junho de 2010
Fantástica coleção privada na Inglaterra
Veja a matéria no Guardian (enviada por João Luiz Vieira)
Ver matéria
No Brasil, uma história semelhante é a do também ex-projecionista Ivo Raposo, que recriou, detalhe por detalhe, com peças originais, o finado Metro Tijuca em seu sítio em Conservatória, RJ, no cinema que intitulou de "Centrimetro" e hoje é sede e símbolo do Festival anual CineMúsica.
sábado, 5 de junho de 2010
Acervo Alcyr Costa - imagens de Belo Horizonte
Memória de BH
Dentre as produções do cineasta, Alcely [filha do cineasta] citou um documentário, exibido, na época, no Cine Metrópole, antes do início dos filmes. “Meu pai filmou acontecimentos de destaque, como a criação de novos bairros de BH, a chegada de animais ao zoológico, o carnaval ano 1, promovido pela Prefeitura de Belo Horizonte, a posse de governadores e prefeitos, além de visitas ilustres”, informou. Para o evento da Câmara, Alcely explicou porque escolheu o vídeo ‘Belo Horizonte em três tempos’, de 12 minutos, que mostra BH de manhã, de tarde e de noite e a vida do belorizontino naquela década. “O vídeo mostra o ponto de encontro na Avenida Afonso Pena, o Café Nice, a Esquina dos Aflitos (ponto do comércio na capital), a moda, o tipo de lazer (Ex.: Minas Tênis Clube em 1956), lojas (Ex.: Slooper) e a vida noturna de BH”, completou. Alcely falou, ainda, que, no curta, é mostrado o contraste das grandes mansões da Pampulha com as favelas de Belo Horizonte.
Iniciando sua carreira como fotógrafo, Alcyr fez curso de cinema com o produtor Herbert Richers, a pedido de Juscelino Kubitschek, que o solicitava, sempre, para a filmagem de importantes eventos. Produzindo um filme de JK, Alcyr trabalhou, também, com Cid Moreira, quando este iniciava sua carreira como locutor. O filme “Belo Horizonte em três tempos” tem a locução de Cid Moreira. Alcely salientou que seu pai realizou trabalhos em todo o país. “Temos mais de trezentas latas de filme, incluindo documentários que retratam, além da história de Belo Horizonte – Parque Municipal, Praça da Liberdade e Praça Raul Soares -, o Projeto Carajás, a construção do Porto de Tubarão, Serra Pelada, etc. Ou seja, o acervo revela a realidade de Belo Horizonte, de Minas Gerais e de várias partes do Brasil”, concluiu Alcely.
Preservação do acervo
Alcyr gostaria que seu trabalho não fosse desmembrado. Então, o acervo encontra-se intacto e a Câmara Municipal é o primeiro lugar onde um dos filmes é apresentado ao público. Fazem parte do acervo, além de equipamentos antigos, utilizados pelo cineasta, todo o vestuário apropriado a cada tipo de trabalho. O acervo fica [...] no escritório de Alcyr.
Esta matéria é de dezembro de 2009. Recebi esta semana o seguinte e-mail encaminhado por Hernani Heffner:
"Olá a todos
Envio esse email a várias pessoas e órgãos relacionados ao audiovisual, principalmente preservação e restauração, para alertar sobre um material precioso e único que está deteriorando e que precisa de alguém ou alguma empresa para que isso não ocorra.
Há em Belo Horizonte um acervo de mais de 400 rolos e equipamento de filmagem do Sr. Alcyr
Viana Costa, que fazia filmagens para Kubitschek quando ele era prefeito da cidade, incluindo um documentário maravilhoso chamado "Belo Horizonte em Três Tempos", com a locução de Cid Moreira, que mostra a cidade de manhã, tarde e noite. Também há imagens do projeto Carajás no começo, incluindo a primeira explosão, ou seja, há imagens não só de BH. Esse material está deteriorando, guardado pela filha dele, Alcyra Viana Costa. Segundo ela, está bem acondicionado, mas não segundo os critérios de conservação adequados.
[...]
Ela disse que não tem intenção de doar o material, porque era a vontade do pai dela antes de morrer que se vendesse isso, e da mãe dela também. À época desse vídeo dos 112 anos o Estado de Minas comprou trechos desse filme "Belo Horizonte em Três Tempos". Eu vi essas cenas na web, mas acho que elas estavam restritas para assinantes do EM, porque quem me passou foi um assinante, e nunca mais eu as vi. Ela fez uma cópia desse filme e anda com ele na bolsa o dia inteiro! Disse que eu poderia marcar sessões de exibição para quem estivesse interesse.
Na época da compra dos trechos pelo EM, ela disse que escreveu um projeto para a lei de incentivo à cultura de R$ 180.000,00 para que o CRAV comprasse esse material, o que não foi aprovado.
Ela também não sabia que mesmo se doasse o material os direitos autorais seriam dela ainda, mas mesmo depois de informada disso, ela perguntou quanto ganharia com isso, quanto geralmente paga-se pelo uso de um trecho.
Até agora não encontrei uma forma de reclamar esse patrimônio como bem público, de importância histórico-cultural-cinematográfica, e tentar força-la a doar isso,pois acho que seria o mais justo com o material. Também há sempre apossibilidade da compra disso por empresas ou particulares ou a criação de umprojeto bem elaborado para obter recursos públicos para que ela permita o acessoa esse patrimônio.
Esse e-mail é para tentar encontrar alguma forma de evitar que esse material se perca.
Grato,
Felipe Ivanicska"
No youtube há um vídeo intitulado "Vista Aérea de Belo Horizonte - Década de 50" com imagens do acervo Alcyr Costa/O Estado de Minas, que devem ser do documentário "Belo Horizonte em três tempos".
Parece que a Cinemateca Brasileira, em São Paulo, teria comprado esse acervo, mas não foi divulgada nenhuma confirmação oficial.
Segundo informações do preservador mineiro Alexandre Pimenta (e-mail pessoal de 6 de junho de 2010), o acervo de Alcyr Costa (Panta Filmes) tem cerca de 400 títulos, registrados em sua maioria em negativos, cópias e copiões 35mm, e estão guardados num local onde funcionou um cinema, na rua Tamoios, centro de Belo Horizonte. O CRAv (Centro de Referência do Audiovisual) teria tentado levar para frente projetos para assumir a guarda desse material, mas isso acabou não acontecendo.
sexta-feira, 28 de maio de 2010
carta aberta a Cinemateca Brasileira
Abaixo do texto, faço alguns comentários pessoais sobre o conteúdo do documento.
São Paulo, 24 de maio de 2010
À Cinemateca Brasileira,
Reconhecemos o enorme esforço e o imenso trabalho que têm sido feitos, ao longo dos anos, para bem equipar a instituição com telecine, auditório, ambiente climatizado para guarda dos filmes, entre outras providencias, assim como a importância da política de aquisição de acervos como da Atlântida ou Jean Manzon que poderiam se perder por falta dos cuidados e guarda adequados.
Contudo, vimos por meio desta, solicitar uma reunião com o Conselho e a Diretoria da Fundação Cinemateca Brasileira no sentido de pedir o encaminhamento de soluções para a melhoria da política de atendimento à pesquisa (e ao público) no acervo desta instituição. Nós cineastas, pesquisadores, produtores, estudantes, cidadãos entendemos que:
• A FCB trabalha com um acervo que é bem público, que é seu dever não só preservar e adquirir novos materiais mas também disponibilizá-los para novas produções e para o público interessado em geral. Sem acesso não existe sentido na preservação pura e simples pois a ressignificação da memória audiovisual através de novas produções, reflexões e olhares se estanca.
• É necessária a criação de uma política de valores e prazos transparentes e publicada no site, nos moldes de outras instituições como o Arquivo Nacional.
• Acreditamos que a política de valores deve ser diferenciada , baseada no tipo de veiculação do projeto final. Desta forma pode-se atender as especificidades das demandas de pesquisa e tornar realmente acessível o acervo da Cinemateca respeitando projetos de orçamento mais baixos, viabilizando a utilização de imagens para historiadores, pesquisadores, estudantes que estejam fazendo teses na área e necessitem de material para seus projetos desde que comprovados por documentação da instituição a que estão ligados.
• É fundamental o acesso a todas as bases de dados disponíveis na Cinemateca para que o pesquisador/produtor/diretor que o queira possa ele mesmo filtrar os termos para a pesquisa de seu projeto.
• Propomos a ampliação da estrutura de atendimento a pesquisa , pois diante do aumento da demanda de documentários no país, se faz necessária a criação de uma política que permita que as pesquisas e os licenciamentos das imagens sejam feitos num prazo de realidade de mercado . Hoje em dia o tempo requerido para visualização do material, por si só , ja inviabiliza os projetos.
• Que seja dado a produção dos filmes e pesquisadores ter a possibilidade de fazer o telecine ou tranfer de VT do material levantado na FCB em outros lugares desde que sejam locais reconhecidamente profissionais; nos moldes do que era feito há alguns anos atrás quando a própria Cinemateca não tinha telecine, seria uma opção para o telecine da CB ocupado com os projetos de grande porte.
• Estudo de uma solução para o problema de acesso ao acervo Tupi , que se trata do único acervo televisivo dos anos 50/60 disponível para pesquisa. Atualmente encontram-se indisponíveis, inclusive, as fitas VHS que eram visionadas para escolha de material.
• Desenvolvimento de uma politica de atendimento aos acervos que recentemente foram adquiridos pela instituição e que estão indisponíveis, enquanto estes não forem totalmente digitalizados e disponibilizados no site da Cinemateca, processo que deverá levar muito tempo ainda.
Cordialmente abaixo assinados,
Comentários:
Esta carta surgiu como uma iniciativa de produtores, cineastas, documentaristas e pesquisadores que trabalham com obras e registros audiovisuais de arquivo. Nos últimos dez anos, a Cinemateca Brasileira tem vivido um processo de "inchaço", resultando numa centralização do acervo audiovisual brasileiro em suas dependências, em São Paulo. Essa centralização decorreu em parte da crise de outras instituições - sobretudo a que afetou a Cinemateca do MAM-RJ, especialmente entre 2002 e 2003, mas também recentemente o CRAv, em Belo Horizonte, por exemplo. Por outro lado, o governo Lula vem investindo grandes recursos no setor audiovisual, contemplando também o campo da Preservação Audiovisual. Entretanto, também na destinação de verbas públicas, a Cinemateca Brasileira (que só foi incorporada ao Estado em 1984) tem sido privilegiada. Como escreveu Carlos Roberto de Souza em sua tese de doutorado sobre a instituição, entre os recursos "recebidos do Ministério da Cultura e os captados através de projetos e convênios, houve um avanço notável, sobretudo após a vinculação da Cinemateca à Secretaria do Audiovisual: R$ 747 mil em 2002, R$ 1.635 mil em 2003, R$ 3.171 mil em 2004, R$ 3.178 mil em 2005, R$ 4.153 mil em 2006".
O crescimento exponencial de seu acervo (com a ida de parte do acervo da Cinemateca do MAM e do Arquivo Nacional, novas doações e o advento do depósito legal de cópias coordenado pela Ancine) obviamente gerou uma ampliação da demanda por acesso.
Uma crítica que tem sido feita correntemente à Cinemateca é que o atendimento ao público (seja o profissional, o amador ou o estudante) não tem sido valorizado, sendo priorizados projetos milionários e midiáticos que levem o nome da instituição, sabendo que é através do SAC (Sociedade de Amigos da Cinemateca) que são repassados recursos para diversos projetos da SAv não necessariamente ligadas diretamente à preservação audiovisual.
Além do acesso aos materiais, o acesso aos serviços prestados pelo laboratório da Cinemateca Brasileira (que em muitas circunstâncias tem sido administrado como um laboratório comercial) também tem se mostrado problemático, seja para o telecine, a duplicação ou a restauração de materiais.
Por conta das novas implicações advindas das tecnologias do vídeo e do digital, que não demandam necessariamente armazenamentos a longo prazo como exige a película, mas sobretudo o gerenciamento dos materias para a realização das inevitáveis migrações de suportes, uma política descentralizadora no campo da Preservação Audiovisual se torna mais do que nunca necessária. Se o discurso centralizador deste campo em nosso país tem sua origem na passagem para os anos 1980 (conferir, por exemplo, o livro Cinemateca Imaginária, organizado por Carlos Augusto Calil quando à frente da instituição, que defendia a construção de um "depósito central"), o governo Lula definitivamente restringiu suas políticas de descentralização e regionalização ao setor da produção audiovisual, não adotando o mesmo direcionamento para o da preservação. Tendo em vista o novo cenário tecnológico (o advento do digital), a ampliação da demanda por acesso (expressa pela redação desta carta) e das necessidades intrínsecas à área (em relação à documentação correlata, por exemplo, levantei esse ponto em outro texto), esse documento sem dúvida reflete a necessidade de uma reformulação das ações e iniciativas no campo da Preservação Audiovisual no Brasil.