segunda-feira, 29 de junho de 2009

Fitas VHS jogadas no lixo

A loja da Video & Cia, em Icaraí, talvez seja a mais tradicional videolocadora de Niterói. Ela era conhecida pelo seu enorme acervo, repleto de filmes europeus e brasileiros, além dos lançamentos de praxe do cinema americano. Até bem pouco tempo atrás, era uma das poucas locadoras que ainda mantinha um acervo de fitas de vídeo VHS. Como professor da UFF, utilizei e recomendei aos meus alunos a locadora, onde podia se encontrar filmes brasileiros não lançados em DVD. Exibi algumas vezes em sala de aula a fita de Eles não usam black-tie (Leon Hirszman, 1981), que só foi lançado em DVD em 2007, e também de Pixote, a lei do mais fraco (Hector Babenco, 1980), até hoje indisponível em suporte digital. Isso sem falar das coletâneas de curtas-metragens lançadas pela Funarte nos anos 1990, além de outras raridades nacionais como filmes da Boca do Lixo e do Beco da Fome.

Sofrendo pressão da especulação imobiliária que assola Niterói, a videolocadora na esquina da rua Presidente Backer e Tavares de Macedo teve que desocupar a casa de dois andares - que se transformará num mini-shopping center (foto de Pedro de Luna) - e sua dona simplesmente mandou jogar no lixo todo o acervo de fitas VHS. Seu igualmente significativo acervo de DVDs agora se encontra um tanto espremido em uma outra loja, bem menor, na rua Gavião Peixoto.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

ABPA

Criada em 2008, a Associação Brasileira de Preservação Audiovisual (ABPA) teve sua legitimidade reconhecida e reforçada no 4º Encontro Nacional de Arquivos e Acervos Audiovisuais, realizado de 20 a 22 de junho de 2009, durante o 4º CineOP, em Ouro Preto.

A nova Comissão Executiva, eleita em Assembléia Geral, já começou a trabalhar pela ABPA, começando pela criação de seu site (http://abpablog.wordpress.com/) que passa a figurar nos links deste blog.

Um dos primeiros objetivos da ABPA é colocar o tema da preservação do patrimônio audiovisual brasileiro na pauta das discussões sobre o audiovisual e sobre a cultura no Brasil, divulgando, inicialmente, a própria criação da Associação. A notícia já está correndo, basta ver os links abaixo:

Cinememória de Vladimir Carvalho

Matéria publicada em http://www.unb.br/noticias/unbagencia/cpmod.php?id=35573, enviada por Yuri Queiróz.

O gesto extremo do cineasta


Vladimir Carvalho decide doar todo o acervo cultural construído em seus 74 anos de idade, inclusive a própria casa, à comunidade de Brasília. A casa de Vladimir Carvalho, no início da W3 Sul, tem a arquitetura de um filme. Cada cômodo sugere uma cena. As janelas são como rolos de película. Os objetos contam uma história - que começa no jardim, invade a sala de estar, engole a área de serviço e enche de vida um pequeno auditório no segundo andar. Revestida de lembranças, a construção na quadra 703 abriga nada menos que a trajetória de um dos maiores documentaristas do Brasil. Há 15 anos, o autor de Conterrâneos velhos de guerra e O país de São Saruê resolveu transformar o próprio lar, onde vive desde 1983, num pequeno museu. Esta semana, o diretor levará o projeto pessoal da Fundação Cinememória às últimas consequências: doará todo o acervo - com a casa e tudo - para a comunidade, por meio da Universidade de Brasília (UnB).

"É uma ideia fresquinha, ainda não sei a consequência disso tudo", admite o cineasta, que completou 74 anos em janeiro. Mas ele está decidido a apresentar a oferta nesta quinta-feira, em reunião na UnB com participação do reitor José Geraldo de Sousa Júnior. "Quero fazer a doação do local físico, que é de minha propriedade, com tudo o que existe aqui dentro. Os 3 mil livros, meus 21 filmes, todas as fotografias e os equipamentos. É um acervo que construí por mais de anos de vida, e estou dando de mão beijada à cidade", diz.

A decisão não veio à toa. Foi preparada como um grande presente para as comemorações dos anos de Brasília. Mas também provoca o barulho de um ato político: com a verve habitual, o professor aposentado da UnB grita pela preservação da memória brasiliense.

A batalha começou há tempos. A Cinememória nasceu em 1994 como uma provocação: na época, Vladimir brigava pela construção de uma cinemateca de Brasília. Ano passado, o diretor chegou a desenhar uma planta improvisada da obra, a pedido do Arquivo Nacional. Mas ainda não deu em nada. O sonho ainda está grudado numa folha de papel. "Não existe compromisso de governo", afirma. "A cidade tem uma população de mais de 2,5 milhões e uma das maiores universidades do país. Mas cadê a nossa cinemateca?", critica. Cansado de esperar, Vladimir quer garantir a conservação do próprio museu. "Tenho que me render às seguintes evidências: não sou museólogo, sou um documentarista. Sou o cara da prática. A Fundação Cinememória é transitória."

Convidado para participar de um fórum na UnB sobre os anos da cidade, formado pela Academia e pela comunidade, o cineasta paraibano foi instigado a apresentar projetos para 2010. Vai fazer três sugestões: que a universidade ajude na criação da cinemateca e na organização de uma mostra de cerca de 400 filmes sobre Brasília (a partir de pesquisa de Berê Bahia). E que, finalmente cuide da Cinememória. "O cinema não tem aqui a sua casa. Estou oferecendo inicialmente a minha casa ao cinema local", afirma. Entre as preciosidades guardadas, há cartazes, câmeras raras, fitas de vídeo, revistas, negativos, cartas e imagens de mestres como Mário Peixoto, Glauber Rocha e Rogério Sganzerla. Antes que o martelo seja batido, porém, o diretor faz algumas exigências: não quer que o espaço seja vendido ou transfigurado. Ele também pretende continuar morando na casa: "Vou ficar aqui até o fim da vida."

CINEMEMÓRIA SHIGS 703, bloco G, casa 73.

As visitas devem ser agendadas pelo telefone 3225-8680.

Por dentro da casa

Câmera de guerra
Desenhada para resistir aos conflitos mais violentos, a pesada e compacta filmadora de 35mm é dura na queda. "Ela é quase uma arma, foi muito usada durante a Segunda Guerra Mundial", conta Vladimir.

Cartazes
As paredes são preenchidas por pôsteres de filmes. Entre um Woody Allen e um Hitchcock, o cinema nacional predomina. O cartaz de Deus e o diabo na Terra do Sol, de 1964, é original.

Biblioteca
Em quase todos os cômodos, há mais de 3 mil publicações. O dicionário ACB cinematográfico foi comprado em 1954. "Esse foi um dos meus primeiros livros, eu era garoto ainda", lembra o diretor.

Vovó, a moviola
Doada há oito anos pelo Centro Técnico Audiovisual (CTAV), o equipamento apelidado de "Vovó" foi usado na montagem de clássicos do cinema novo como Terra em transe (1967) e Macunaíma (1969). Veio do Rio de Janeiro num caminhão de mudança.