sexta-feira, 8 de abril de 2011

Relato do The Reel Thing XXII, 2009 (parte 1)

Entre os dias 21 e 22 de agosto de 2009 participei do "The Reel Thing XXII", simpósio técnico promovido pela AMIA (Association of Moving Image Archivists). Estava em Los Angeles com bolsa-sanduiche do doutorado e aproveitei para participar do evento realizado no Linwood Dunn Theater, da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Arrumando meus papeis, aproveitei para tentar passar a limpo algumas das anotações que fiz das palestras, tentando alinhar as questões que me pareceram mais interessantes na ocasião.

A primeira palestra do dia foi de David Giovannoni, intitulada "Adieu, sweet aparition. Hello Sweetheart". Fundador do "First Sounds" um grupo de historiadores do som, engenheiros de áudio, "arqueofonistas" e outros indivíduos que se dedicam voluntariamente a tornar acessíveis os primeiros registros sonoros da humanidade. Giovannoni retomou seu relato do ano anterior quando apresentou a recuperação de um dos mais antigos registros da voz humana, feito em Paris em 1860 - 17 anos antes da invenção do primeiro gravador do som por Thomas Edison e seus cilindros de cera. Isso foi conseguido através da descoberta de registros do "phonautograms" de Édouard-Léon Scott, invento dedicado a tornar o som visível, isto é, fazer uma representação visual do som numa espécie de caligrafia automática. Giovannoni relatou as dificuldades de conseguir "tocar" novamente aqueles registros que não foram criados originalmente com essa intenção. Para saber mais dessa história fantástica, sugiro consultar o site http://www.firstsounds.org/

A segunda palestra foi do célebre especialista John Polito, abordando a restauração sonora do filme How to marry a milionaire (1953), comédia com Marilyn Monroe, Lauren Bacall e Betty Grable, primeiro filme feito em cinemascope e mixado em 4 canais estéreo. Para destacar sua novidade tecnológica, o filme se iniciava com um prólogo de 8 minutos com uma orquestra regida pelo compositor Alfred Newman. O som dessa cena foi registrado com 3 microfones como forma de explorar na exibição do filme a espacialidade proporcionada pelo som magnético. Entretanto, Polito revelou como as fitas magnéticas da mixagem original do filme apresentavam um supreendente nível de 6% encolhimento! As máquinas de reprodução magnética geralmente são capazes de tocar fitas com até 1,5% de encolhimento, enquanto os aparelhos especialmente feitos para os arquivo suportam até 4% de encolhimento. As fitas magnéticas apresentavam-se portanto até 2 mm mais curtas do que sua dimensão original. Polito advertiu ainda como a prática corrente de "assar" as fitas de áudio ajudam um pouco, mas fazem mais mal do que bem, pois a deixam em condições piores no final de contas. Foram relatadas ainda como esses problemas foram superados na restauração do filme, apresentado ao final do dia para o público.

A palestra seguinte também foi a apresentação de um caso de restauração, mas do filme Rashomon, de 1950, patrocinado pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Mike Pogorzelski apontou como, apesar de ser um filme clássico, não existiam boas cópias 35mm da obra-prima de Kurosawa em nenhum arquivo do mundo. Relatou que nos anos 1970 o negativo original do filme - feito com pouquíssimos recursos - havia desaparecido. Para a restauração foi utilizada uma cópia 35 mm em acetato de 1962, mas, como material de referência, descobriram alguns fotogramas do negativo de câmera que haviam sido guardados pelo diretor de fotografia. A cópia utilizada foi duplicada antes de ser escaneada para não haver riscos, sendo digitalizada em 4K. Pogorzelski observou que os piores elementos para serem tratados numa digitalização, que correm o risco de aparecer como erros devido aos detalhes e a velocidade com que aparecerem, são folhas de ávores, gostas de chuva e chamas de fogo. A platéia riu com a lembrança de que Rashomon se passa em grande parte numa floresta, à noite, com personagens em volta de uma fogueira! A restauração do filme teria custado 400 mil dólares e como produto final foram feitas cópias novas em 35mm e e extraída uma versão em HDCAM-SR para o lançamento do filme em blu-ray (ele já fora lançado em DVD pelo selo Criterium).

A palestra seguinte, mais técnica e menos interessante, abordou o tema da Síndrome do Vinagre no ambiente de trabalho. Os palestrantes, funcionários da Citadel Enviorenmental Services, discorreram sobre o tema de "Higiene industrial", divido nas etapas de reconhecimento, avaliação, prevenção e controle. Foi debatido o dilema entre isolação e ventilação nos ambientes de arquivos audiovisuais e afirmou-se, ao fim, que a síndrome de vinagre não representa ameaça tóxica ou cancerígena para os funcionários, mas pode causar diferentes tipos de irritação de pele.

A parte da tarde começou com a palestra de Ethan Miller, sobre o tema do armazenamento de arquivos digitais que abordarei em seguida.

Mais original foi o relato de Al Sturm, da Wideband Video Labs, sobre a restauração de fitas da primeira missão de registro ótico da lua através de satélite da NASA, anunciada com furor pela mídia americana no ano anterior. O palestrante revelou como a tarefa foi muito mais complicada e contou com muito menos recursos do que foi anunciado.

Sobre formatos "estranhos" também falou Ralph Sargent, ao expor o caso da restauração de um episódio do programa de TV "Johnny Cash Presents the Everly Brothers Show", série da rede ABC do início dos anos 1970. O surpreendente do caso é que esse material não foi gravado internamente pela emissora quando feito, mas sobreviveu apenas através de uma gravação a partir da transmissão televisiva (off-the air) feita em uma fita 1 polegada tipo A, um formato pouco utilizado de vídeo produzido pela Ampex e destinado a uso educacional e destinado ao mercado caseiro - uma espécie de precursor do VHS. Sargent relatou as dificuldades para restaurar essas fitas e mostrou alguns trechos - muito bons! - do programa musical.

Voltando ao tema da NASA, Mike Inchalik fez um relato muitíssimo interessante sobre o sistema utilizado para capturar em vídeo a atividade dos astronautas da nave Apolo 11 fora do veículo espacial. Os registros dessa primeira missão lunar tripulada foram transmitidas ao vivo da lua para a Terra num formato único, nunca utilizado comercialmente, de 320 linhas por quadro, e velocidade de 10 quadros por segundo. Elas foram registradas em fitas de 1 polegada, totalizando 9.200 pés (2.800 metros), com 525 linhas e 60 quadros por segundo. Mas as 45 fitas utilizadas estavam desaparecidas.
Essas imagens eram filmadas na Lua, transmitidas para a Terra, seus sinais convertidos, e depois transmitidas pela TV para a casa de milhares de pessoas em todo o mundo. Dessas imagens sobreviveram apenas os seguintes materiais utilizados na restauração: uma VHS feita em Sidney (onde havia também uma base de apoio à expedição lunar) a partir de fita 2 polegadas; uma quinescopagem feita na NASA (isto é, a filmagem em película diretamente do monitor de vídeo); algumas fitas 2 polegadas da rede de televisão CBS que transmitiu a missão pela TV; e, mais surpreendente de todos, um filme 8 mm feito com câmera na mão filmando um monitor de baixa frequencia na Austrália!

A última apresentação foi sobre o filme ilustrativo do USS Arizona Memorial, museu construído no navio abatido no ataque japonês a Pearl Harbor na Segunda Guerra Mundial. O filme feito em 35 mm nos anos 1980 vinha sendo exibido nesse formato a todos os visitantes até se decidir pela feitura de uma versão digital para substituí-lo. O filme foi scaneado em 4K e apresentado em pré-estréia para o público do simpósio em projeção 4K. Foi a primeira vez que pude ver esse tipo de apresentação e a riqueza de detalhes na tela impressionam, embora, mesmo em 4K, eu ainda tenha ficado insatisfeito com o tom e profundidade das cores, que me pareceram ainda opacas e pouco vivas em relação à película.

Continua...

domingo, 3 de abril de 2011

Mágicos de Oz: sobrevivências, perdas e achados na história do cinema australiano.

Este texto de Ray Edmondson – publicado originalmente no livro This film is dangerous (2002), traduzido para português por Daniel Pech e revisado por mim – é um relato pessoal, divertido e interessante do papel e importância dos colecionadores particulares para a preservação audiovisual de um modo geral, e especificamente no caso do patrimônio cinematográfico da Austrália. Através de casos que Edmondson vivenciou em sua longa carreira, é possível evidenciar a importância dos arquivos audiovisuais estabelecerem uma rede de relações que são essenciais para o resgate de obras que geralmente ocorre através da conjunção (ou coincidência) de diferentes eventos e da colaboração de diferentes pessoais nas mais distintas circunstâncias.

Mágicos de Oz: sobrevivências, perdas e achados na história do cinema australiano, de Ray Edmondson

Entre os Colecionadores

Eu não acho que exista nada mais emocionante na preservação de filmes do que achar um importante filme “perdido”. Sem querer soar melodramático, as comparações que mais rapidamente vêm à mente são com os arqueólogos entrando em uma antiga tumba egípcia jamais saqueada no Vale dos Reis ou o jovem Jim Hawkins e Long John Silver transformando-se em milionários na Ilha do Tesouro (Visões de um risonho Robert Newton babando em cima de uma pilha de latas recém desenterradas não parecem totalmente incongruentes. “Arrrhh, agora Ray, meu rapaz, que pérolas preciosas nos esperam aqui, hein?” ele exclama, e com a ponta de uma chave de fenda abre a tampa enferrujada...)

Desde 1968, quando eu ingressei no predecessor da NFSA – o embrionário Arquivo de filmes da Biblioteca Nacional da Austrália – a arqueologia da história do cinema australiano foi sempre uma intrigante jornada de descoberta. Da história da indústria cinematográfica australiana durante a era do nitrato pouco havia então sido documentado. Entretanto, já existia uma coleção de centenas de títulos, pesquisas sérias estavam se iniciando e muitos dos pioneiros dessa indústria ainda estavam vivos.

Como eu estava para descobrir, a rede de colecionadores de filmes era vibrante, ativa e, claro apropriadamente discreta. Muitos eram pessoas apaixonadas, cujos hobbies custavam caro. Seus cinemas 35 mm particulares – às vezes construídos em garagens ou salas de estar – não eram baratos. Suas coleções ocupavam espaço – barracões, garagens, cômodos vazios. Pelo fato dos filmes serem inflamáveis, eles eram compreensivelmente receosos em compartilhar seu entusiasmo com vizinhos ou com as companhias de seguro. Mas em seus lares, as esposas e filhos (colecionadores são quase sempre homens) geralmente eram obrigados a compartilhar o entusiasmo do pai!

Em tempo, eu me senti bem vindo ao mundo deles. Foi um privilégio ser tratado dessa forma já que, como um arquivista que trabalhava para o governo ao invés de colecionador privado, eu representava a suspeita mão da “oficialidade”. É preciso lembrar que qualquer coleção privada de filmes 35 mm era composta, pelo menos em parte, de filmes que eram tecnicamente “propriedade roubada” – ou seja, de películas que foram oficialmente, se não realmente, jogadas fora. Elas chegaram às mãos dos colecionadores de forma informal e as distribuidoras comerciais das quais elas se originaram – que, dentre outras coisas, temiam a pirataria – compreensivelmente desaprovavam a prática. E desaprovavam algumas vezes de forma ativa: histórias de batidas policiais instigados por distribuidoras a coleções privadas eram parte do rico folclore da rede dos colecionadores, que abundava também de pessoas anunciando grandes descobertas e contando vantagens ou causos de passarem a perna em distribuidoras ou laboratórios (Ao mesmo tempo, eu suspeito que a “emoção” de possuir material ilícito era, para alguns, parte da atração de colecionar).

As histórias são muitas, mas a do misterioso e anônimo “Cavalheiro Chinês” pode servir de exemplo. Naquela época, na Austrália, películas 35 mm eram geralmente mandadas para cinemas no interior do país via trem – a programação era agendada com exibições em cinemas de cidades ao longo da linha férrea. Os filmes “seguiam a linha do trem” para serem exibidos em cada uma delas de cada vez. Os filmes seriam entregues com um dia de antecedência de cada exibição, as latas dos filmes seriam colocadas na plataforma pelo guarda do trem, à espera da coleta pelo projecionista do cinema. Havia um alto grau de informalidade e confiança envolvido – pelo que eu me lembro de observar quando criança, as latas (de metal pesado, contendo vários rolos de filmes de nitrato) podiam ficar na plataforma da estação sob sol forte por várias horas até serem coletadas.

Entra o “Cavalheiro Chinês”. Aparentemente, ele tinha um acordo com um – ou mais – funcionário da estação nas situações onde esse atraso habitual poderia lhe trazer vantagem. Ele pegaria “emprestado” um filme por várias horas, tempo suficiente para fazer um duplicado negativo e retorná-lo antes que o receptor viesse retirá-lo. Esse negativo poderia fornecer inúmeros filmes piratas cujo uso – na Austrália ou no exterior – podemos apenas supor. Imagina-se que o senhor Cavalheiro tivesse seu próprio laboratório – algo totalmente possível na época do filme preto e branco (eu conheci colecionadores que tinham suas próprias copiadoras – o mais importante equipamento, uma vez que a revelação podia ser feita fora).

Claro, os meios que os colecionadores usaram para obter seus filmes podem ser classificados em outras três categorias. A primeira seria a genuína descoberta em locais inesperados, como cabines de projeção de cinemas antigos, ou lojas de segunda mão. A segunda seria pelo tradicional escambo com outros colecionadores. A terceira seria uma aquisição “informal” com distribuidores.

Sobre a última categoria, eu nunca conheci um colecionador que admitisse ter feito uso dessa prática – mas todos sabem que aconteceu! Hipoteticamente, o colecionador Jones conhece o despachante Smith na distribuidora da Companhia de Filmes Estupendos. Smith fora instruído a destruir uma quantidade de películas excedentes e certificar legalmente que isso fora feito. Casualmente, ele menciona isso para Jones, que felizmente poderia fazer-lhe o favor de realizar essa tarefa. No dia seguinte, Jones chega com seu carro e Smith joga as películas no porta-mala. Smith poderia agora, formalmente, dar baixa delas, enquanto Jones – que, parece, não é sempre muito organizado – poderia esquecer-se de destruí-las. Existem inúmeras variações desse caso, e apesar das instâncias oficiais de muitas companhias, havia – pelo menos, algumas vezes – evidente tolerância do inevitável. Colecionadores teriam a mentalidade de que enquanto não houvesse pirataria e o lucro da distribuidora não estivesse sendo afetado, a prática não causaria mal e, de fato, no decorrer do tempo, trouxeram benefícios, contribuindo para a sobrevivência de filmes.

Com o passar dos anos, eu conheci muitos colecionadores que tinham e vigiavam cópias únicas de filmes australianos em nitrato que foram encaminhadas aos nossos arquivos. Entre eles havia filmes mudos como The Breaking of the Drought (1920), de Franklin Barrett, a segunda versão para o cinema do clássico da literatura Robbery Under Arms (1920), o ousado filme de Raymond Longford The Woman Who Suffers (While the Man Goes Free) (1918), The Adventures of Algy (1925), de Beaumont Smith e Waltzing Matilda (1934), do comediante Pat Hanna. Tão importante quanto, havia muitos cinejornais, documentários e filmes publicitários que sobreviveram em coleções particulares.

Colecionadores valorizam sua privacidade, mas eu irei mencionar dois, ambos já falecidos, que eu acho que ficariam felizes em serem lembrados nesse contexto. John Scanes (a fonte de Robbery Under Arms) era um homem extremamente generoso que mantinha sua coleção e equipamento de projeção em sua garagem em um subúrbio distante de Sidney. Ele me alertava quando suas atividades se deparavam com um interessante filme australiano e isso geralmente resultava no depósito dos rolos na coleção do Arquivo. Ele me tornou uma visita bem vinda em sua casa e nós, às vezes, passávamos horas assistindo parte de sua coleção. Guardadas em pilhas em sua garagem, cada rótulo de lata poderia nos levar a uma história passada, ao exame numa mesa enroladeira ou ocasionalmente a projetar algo na tela. Quando tínhamos espaço, eu oferecia guardar alguns filmes de nitrato no nosso cofre em Camberra: muitos de seus filmes raros de origens americanas e européias, alguns da virada do século, foram progressivamente repatriados para arquivos em seus países de origem.

Harry Davidson era talvez o mais famoso colecionador de Melbourne. Ele tinha duas coleções: a primeira foi perdida em um incêndio entre os anos 50 e 60 (ele nunca tinha certeza em relação à data). Ele recomeçou e construiu uma segunda coleção e sua casa era um templo de seu amor pelos filmes: estatuetas e relíquias de cinemas demolidos eram postas pela casa, disputando espaço com latas de filme e memorabilia postas em salas e corredores, e o característico cheiro de nitrato (e eu confesso que amo esse cheiro) estava em toda parte. Harry guardava sua coleção com ciúmes, mas no final dos anos 1970 ele finalmente cedeu e me emprestou seu precioso The Exploits of the Emdem (1928) para copiar, sob minha promessa de sua segurança e retorno seguro. A película já estava mostrando sinais de decomposição e eu mandei para tratamento de retirada de riscos em um laboratório privado antes de copiá-la. Inesperadamente, o tratamento reagiu com a película e piorou seu estado de deterioração. Eu não mantive minha promessa. Passaram-se anos até recuperarmos a confiança de Harry e ele novamente nos deu acesso a sua coleção.

Por volta de 1980, Harry faleceu subitamente, deixando a esposa Pat e a filha Theda. Nós conseguimos comprar sua coleção de aproximadamente 2000 rolos. Muitas de suas riquezas, que incluíam uma versão tintada de Metropolis e cópias únicas do início da carreira de Harold Lloyd foram desde então distribuídas para arquivos ao redor do mundo como parte do programa de repatriação de filmes em nitrato da NFSA nos anos 1990. Em cada caso, os arquivos identificavam o material como parte da “coleção Harry Davidson”. Isso fazia parte de nossas condições para aquisição e celebrou a realização – e o legado – de Harry como colecionador.

Enquanto arquivos de filmes frequentemente possuem meios financeiros, geralmente indisponíveis para pessoas físicas para copiar, guardar de forma correta e preservar filmes em nitrato, é mais comum que seja o colecionador que disponha de tempo, contatos e disposição para encontrar os filmes em primeiro lugar. É uma parceria, embora o papel do colecionador geralmente seja esquecido – e muitos colecionadores preferem dessa forma. Mas a parceria depende de relacionamentos pessoais, envolvendo respeito mútuo, um amor em comum por filmes antigos e a disposição para aceitar as obrigações morais que vem ao ser convidado para – e talvez assumindo responsabilidade por – um mundo particular, o produto de uma vida inteira de paixão e persistência.

Alguns que foram

Os três maiores diretores australianos do cinema mudo – Raymond Longford, Franklyn Barrett e Beaumont Smith – eram prolíficos, cada um realizando mais de 20 filmes em suas carreiras. Tragicamente, apenas vestígios de seus trabalhos sobreviveram.

Do trabalho de Longford, apenas sua obra-prima mais conhecida, The Sentimental Bloke, sobrevive intacta (ver abaixo). Versões substanciais, embora incompletas ou encurtadas, de três outros filmes existem, assim como fragmentos de outros dois. Longford trabalhou para uma série de produtoras entre 1910 e 1914, e não possuía sempre os direitos ou o controle físico de seus filmes. Eles passaram por uma serie de mãos e sua sobrevivência foi uma questão de sorte.

Flanklyn Barrett, da mesma forma, trabalhou para uma serie de produtores, mais tarde abrindo sua própria empresa, e fazendo seu ultimo filme – A Rough Passage – em 1922. Apenas dois de seus filmes – The Breaking of the Drought e A Girl of the Bush, ambos de 1920 – sobreviveram. Por muitos anos, ele parece ter mantido suas cópias e negativos em sua garagem e nos anos 1950 tentou despertar interesse institucional em sua preservação. Mas antes que qualquer progresso pudesse ocorrer, a estrutura de sua garagem cedeu; os filmes, e os demais destroços foram recolhidos como escombros.

Desde o início, Beaumont Smith trabalhava sua própria produtora, fazendo seu primeiro filme em 1917 e seu último em 1934. Três de seus filmes e um fragmento de um quarto chegaram até nós. O fato de não termos sua obra completa é o resultado do tempo e de circunstâncias. Depois da morte de Smith em 1950, seu irmão herdou os filmes sobreviventes e os reteve por vários anos. Mas uma conversa casual com alguém da brigada de incêndio local o alertou para os perigos de se manter uma grande pilha de filmes de nitrato inflamáveis na garagem de sua casa. Sob conselhos, ele consentiu na destruição de toda a obra pelas autoridades do corpo de bombeiros. A biblioteca nacional, então iniciando uma busca por filmes de nitrato escrevendo para todas as brigadas de incêndio da Austrália, rastreou o senhor Smith – apenas seis meses mais tarde. Apenas um fragmento – alguns minutos do filme The Digger Earl de 1924 – havia sobrado. Foi apenas anos mais tarde que uma cópia de um filme mudo de Smith, e dois de seus filmes falados, foram encontrados com outras fontes.

Quatro Achados

National Films, Fatty Finn e Charlie Chaplin

A National Films, de New South Wales, era uma distribuidora pequena e independente, cujo dono era o artista Gerry Tayler. Por muitos anos, até meados da década de 1960, ocupava escritórios na cobertura de lojas na Rua Pitt, o coração do centro comercial de Sidney. Os arquivos de filmes, contendo milhares de rolos de nitrato eram vizinhos aos escritórios: embora eles nunca tivessem tido nenhum problema, pode-se especular que um incêndio dos nitratos teria transformado o edifício em uma interessante variação de um show de fogos de artifício.

Como independente em uma indústria dominada por um pequeno número de grandes empresas estrangeiras, a National trabalhava à margem, suprindo exibidores independentes do interior e nichos específicos. Seu inventário incluía produtos americanos como as séries “Joe Palooka”, vários longas e curtas-metragens australianos e até mesmo material do período silencioso desprezado pelas majors após o advento do som. A National regularmente juntava aos cinco cinejornais locais, curtas cômicos do cinema mudo – nos anos 1950, era o único local onde era provável assistir a esses filmes em 35 mm. Quando estudante, eu freqüentava esses cinemas especializados em cinejornais regularmente e dentre outras coisas, com o passar dos anos, foi lá que eu assisti pela primeira vez aos curtas mudos do Chaplin – todos eles, como eu aprendi depois, parte da série relançada (com música) pelo estúdio Van Bueren nos anos 1930 e vindos da National Filmes.

Outro freqüentador desses cinemas nos anos 1950 (e que eu iria conhecer mais tarde) era John Morris, um estudante da Universidade de Sidney e membro ativo de seu Clube de Cinema. Certa vez, ele ficou intrigado por um filme mudo que mostrava crianças em Sidney fazendo palhaçadas. Ele foi até a fonte da cópia – a National Films – e concluiu que se tratava de um segmento de uma comédia de 1927 chamada The Kid Stakes, baseado em uma popular tira de quadrinhos cômica chamada Fatty Finn. Morris concluiu que a National havia, há algum tempo, adquirido três cópias do filme que eles posteriormente cortaram em trechos de vinte minutos para preencher os programas de cinejornais. A qualidade do filme o impressionou, e ele queria ir além.

Com o apoio do Clube de Cinema e a cooperação (e, suspeita-se, a perplexidade) de Gerry Tayler, Morris reconstruiu a melhor copia completa que ele pôde fazer com os remanescentes dos segmentos cortados. Para fazer novas cópias um negativo tinha que ser tirado e isso foi inicialmente bancado pelo Clube de Cinema – até que o projeto provocou interesse suficiente na impressa para a Biblioteca Nacional ser convencida (Morris diz, “envergonhada”!) a contribuir. Hoje, The Kid Stakes é um clássico reconhecido como um dos melhores filmes mudos australianos e a remontagem de John Morris nunca foi aperfeiçoada.

Morris iniciou uma impressionante carreira como produtor e executivo, comandando a South Australian Film Corporation durante os anos 1970 e finalmente, a Australian Film Finance Corporation até sua recente aposentadoria. No fim de 1999, um novo complexo de salas de cinema em Sidney abriu com uma exibição de The Kid Stakes com acompanhamento de orquestra ao vivo. Nessa ocasião, quando John Morris se levantou e cumprimentou a platéia, sua pioneira carreira como restaurador foi publicamente reconhecida pela primeira vez, quase 50 anos após seu feito.

A história da National Film possui outras ramificações. Quando Gerry Tayler faleceu e sua empresa fechou, sua viúva Dorothy herdou o estoque de filmes de nitrato que foi realocado da Rua Pitt – sem dúvida, para alívio do locatário – para onde quer que eles coubessem em sua casa. Dorothy passou seus últimos anos reparando e arrumando cuidadosamente as cópias. Muito disso chegou a nós, da Biblioteca Nacional, e nos anos 1960 eu me tornei visita regular a sua pequena casa em um dos subúrbios no balneário de Sidney. Ela tinha construído uma mesa enroladeira rudimentar usando discos de vinil como pratos com a qual checava e identificava o material antes de colocá-lo em novas latas recém-pintadas (ela própria as pintava, aumentando seu tempo de vida). Em cada visita, eu pegava uma remessa de filmes para levar à Camberra no meu carro, e a “Coleção Tayler” crescia constantemente.

No acervo de Dorothy, estava uma série de internegativos de cópias dos filmes mudos de Chaplin mencionados acima, os quais ela nos ofereceu. Com um coração pesado, porém racional, eu tive de recusar a oferta, já que na época não possuíamos os meios técnicos e humanos para guardá-los e que, logicamente, eles deveria ser oferecidos a um arquivo americano. Eu facilitei o contato com o American Film Institute, para onde eles foram enviados. De acordo com a AFI na época, eles foram considerados os melhores negativos sobreviventes dos filmes silenciosos de Chaplin.

2) The Flying Doctor

Em 1936, uma empresa chamada National Productions, apoiada pela Gaumont-British e ligada ao novo National Studios, complexo em Sidney, foi criada para a realização de produções internacionais na Austrália. Seu primeiro – e único – filme foi The Flying Doctor, realizado pelo diretor britânico Miles Mander e estrelado pela ídolo americano dos filmes de matinê, Charles Farrel. A história girava em torno do famoso serviço que provia cuidados médicos no deserto australiano, e possuía ingredientes interessantes como um papel para o jogador de cricket Don Bradman, então no auge de sua fama. O filme foi lançado na Austrália e na Grã-Bretanha, mas obteve apenas um sucesso regular, e eventualmente sumiu de vista. Em meados dos anos 1970, quando seu título aparecia em uma lista de filmes que nosso arquivo estava em busca, não se sabia da existência de nenhuma cópia.

Um dia, trabalhadores em Lane Cove, subúrbio de Sidney, estavam em uma obra e sua tarefa inicial era a demolição de uma pequena caixa-forte com portas de aço, que estava no meio do caminho. Não conseguindo abrir de outra maneira, um trabalhador fez um corte na porta de aço com um maçarico, revelando seu interior, coberto de latas de filmes de nitrato. Junto com outros entulhos, as latas foram colocadas em um caminhão e jogadas no lixão mais próximo.

Enquanto o caminhão passava pela Prefeitura local, um funcionário percebeu o que ele estava levando e imediatamente correu, perseguindo o caminhão em seu carro. Chegando ao lixão, ele convenceu o motorista a levar as latas a um local seguro e contactou a Film Austrália, uma produtora estatal localizada no subúrbio próximo de Lindfield. Eles, por sua vez, entraram em contato com a Biblioteca Nacional, e o filme foi transferido para a coleção do National Film Archive.

Dentre outras coisas, continha uma cópia em nitrato de The Flying Doctor. Animado e intrigado, eu vi a cópia através de um telecine. Era coisa boa e envolvente, mas quando a história chegava a uma crise insolúvel, no fim do rolo 8, acabou. Era isso. O último rolo estava faltando.

Por dois anos, eu imaginei como a história acabaria. Então, de forma inesperada, a resposta a uma lista rotineira de filmes perdidos enviada ao National Film Archive de Londres – enquanto sem nada referente aos demais títulos – apontou para a existência de uma cópia de The Flying Doctor nos estúdios da Rank, que ficou feliz em nos doá-la. Finalmente, eu iria assistir ao último rolo! A caixa chegou. Eu a desembalei e, para meu desânimo, a cópia de Rank também possuía apenas 8 rolos. Eu a coloquei no telecine. Claramente, era o mesmo filme, mas ele estava remontado e encurtado: o meio e abertura tinham sido alterados, e outras mudanças tinham sido feitas. Eu me preocupei até chegar ao fim do rolo 7 que acabava... precisamente no mesmo ponto do rolo 8 da cópia de “Lane Cove”! Então, o último rolo poderia servir às duas versões! Chegou o grande momento: rolo 8 visto, eu finalmente soube como a história acabava.

Por que haveria duas versões? Isso foi, na verdade, o destino de muitos filmes australianos no período do nitrato e depois. Lançados como filmes “A” em seu país, eles normalmente eram considerados filmes “B” nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha – caso sequer chegassem a ser lançados lá. O negativo original era enviado para feitura de cópias pelo distribuidor internacional, que muitas vezes remontava e/ou mudava o nome do filme para alcançar um maior mercado. (Então The Adorable Outcast virou White Cargoes of the South Seas, On Our selection virou Down on the Farm, Walk into Paradise virou Walk into Hell, Forty Thousand Horsemen virou Thunder Over the Desert). O negativo original e as novas cópias nunca retornavam à Australia – não valia o custo do envio – e normalmente se perdiam. Os orçamentos das produções eram muito pequenos para a realização de másteres (interpositivos) ou cópias de segurança para serem guardadas “em casa”: as cópias dos lançamento originais serviam para a cadeia comercial do filme. Ninguém pensava em vendas futuras ou algo chamado televisão.

Ainda tem mais nessa história. Anos depois, uma exibição itinerante de fotos de nossa coleção, em exposição em uma galeria de arte de Sidney, nos trouxe uma surpresa. Como generosa doação, alguém entregou o livro oficial de fotos de cena de The Flying Doctor, comprado numa loja de segunda mão. Uma incrível série de coincidências nos deu não apenas duas versões do filmes, mas uma cobertura completa de suas fotos de cena. Realmente, um final feliz.

O quê? Eu não revelei o que acontecia no rolo final? Desculpem-me, mas eu não quero estragar o filme, caso vocês ainda não o tenham assistido. Nós podemos lhe vender um vídeo...

(3) Ned Kelly

Enforcado em 1880, Ned Kelly, o fora-da-lei revestido de aço, conquistara, após duas décadas de sua morte, status de celebridade como símbolo de coragem e anti-autoritarismo. Celebrado primeiramente em peças teatrais, e mais tarde em obras como as pinturas de Sir Sidney Nolan, ele se tornou um ícone nacional australiano. É talvez sem surpresas que ele tenha sido o tema de (até hoje) sete filmes, todos tendo sobrevivido inteira ou parcialmente. O primeiro destes, The Story of the Kelly Gang, feito em 1906, é de crucial importância, porque provavelmente representa a primeira aparição no mundo do conceito moderno de filme. Um drama cinematográfico durando algo em torno de 40 e 80 minutos (não há nenhuma documentação exata) e sendo o programa único das sessões, foi um grande sucesso comercial, sendo exibido na Austrália, Nova Zelândia e Reino Unido. Ele foi feito em Melbourne e, para economizar despesas, os produtores até persuadiram a polícia para emprestá-los a verdadeira armadura de Ned Kelly a ser usada pelo ator no filme.

No entanto, até meados da década de 70, não se sabia de nenhum traço do filme. Nós fomos afortunados de adquirir uma cópia do folheto original da programação, que continha uma sinopse detalhada e a reprodução de algumas fotos do filme. Mas não havia nenhum material fílmico...

Um dia, eu estava passando o olho por um material de nitrato que chegara como parte de uma pequena coleção. Chamou a minha atenção um trecho com por volta de 10 fotogramas de perfurações quase quadradas. Havia alguém vestido com a armadura característica de Ned Kelly. Procurei no rolo por mais: havia outros dois breves fragmentos similares. Comparei-os com as fotos do folheto da programação. Não havia dúvidas – eu tinha em mãos algo como 60 centímetros do filme original sobre Kelly. Não era muito, mas era alguma coisa pelo menos. Foi um momento que eu não me esquecerei.

Nós fizemos cópias destes fragmentos – tanto em velocidade real quanto estendida – e, então, tínhamos um relance tentador do filme para exibir. Nós algum dia veríamos mais?

Em Junho de 1979, fui contatado pelo diretor de uma escola de Melbourne, Ken Robb. Enfrentando um período de enfermidade, ele se deparou com uma lata de negativo que havia aparentemente sido encontrada embaixo do porão de uma casa. Após ser copiado, foi possível identificar o rolo como duas cenas estendidas do filme de Kelly: possivelmente de takes excluídos da montagem, as cenas praticamente batiam com as fotos do folheto da programação. Este pequeno rolo de negativo era (e é) um dos ícones físicos mais preciosos do cinema australiano – e sendo só um pouco mais novo que o seu próprio século, ele ainda está em bom estado! Foi um profundo gesto de apoio comunitário do Sr. Robb para o Acervo porque ele simplesmente, e incondicionalmente, doou algo sob o qual ele podia facilmente ter exigido um alto preço.

Dois anos depois, havia mais! Algumas crianças trouxeram para o escritório do jornal Cinema Papers uma lata de filme que eles encontraram na boca de uma lata de lixo em Melbourne. Descobriu-se que eram 150 metros da cópia de exibição do filme – provavelmente da versão de relançamento de 1910. Uma parte estava deteriorada irremediavelmente, mas boa parte pôde ser salva. Finalmente, tínhamos uma seqüência substancial do filme, editada e com intertítulos, como os espectadores originais o viram. Tudo junto, havia agora algo como 5 minutos de material – não muito, mas o suficiente para emanar o sabor e o estilo do filme e para embasar sua importância histórica.

Nada mais veio à tona. As chances de isso acontecer são limitadas, mas não impossíveis – e há quem jamais perca a esperança. Foi apropriado que, para marcar o Centenário do Cinema em 1995, nós finalmente tínhamos Ned Kelly em um selo de postagem australiano. Legalmente, criminosos levados à morte não podem ser impressos em selos: mas a foto de um filme de 1906 em que um ator veste a verdadeira armadura de Ned – bem, isso é um outro caso!

(4) The Sentimental Blonde … er, Bloke

The Sentimental Bloke, produção de 1919 de Raymond Longford, é geralmente vista como a jóia do cinema silencioso australiano. Trata-se de uma simples história de amor passada nos subúrbios, adaptado de um clássico poema narrativo homônimo de CJ Dennis. Estrelando Arthur Tauchert como Bill, o “companheiro” (bloke), e Lottie Lyell como sua mulher, Doreen, o filme foi apreciado por suas interpretações naturalistas e elenco perspicaz.

Dennis escrevera com autênticas gírias australianas, e os intertítulos do filme declaradamente parafraseiam seus versos. Quando Bill é pela primeira vez “apresenteado” (apresentado) à Doreen, ele a cumprimenta com seu chapéu; e quando se arruma para conhecer sua futura sogra, ele faz uma observação com a sua desacostumada elegância:

Mim patentes de couro quase me levaram às lágrimas

Mim gola ereta rasga mim orelhas

Este recurso, claro, explorava a capacidade evocativa dos filmes silenciosos: todos da platéia respondiam às palavras escritas com a criação imaginária das vozes dos personagens. Fora da Austrália, no entanto, o recurso criou sua própria barreira da linguagem. Então, quando o filme foi preparado para o lançamento americano, os intertítulos foram reescritos em gírias americanas! O título principal tornou-se The Sentimental Bloke: The Story of a Tough Guy (O companheiro sentimental: A história de um cara durão) e os versos de Dennis foram um tanto reformulados. Sua descrição do café-da-manhã de casamento:

An’ then we ‘as a beano up at Mar’s

A slap-up feed, wiv wine an’ two big geese

tornou-se:

Then comes the feast at Mar’s: Aunt, uncle, niece,

Done wonders with the wine an’ two big geese

Com o passar da era silenciosa, a carreira de Longford rapidamente declinou (ele terminou sua vida como balconista no porto de Sydney) e seus filmes sumiram de vista. A maioria se perdeu: um punhado veio à tona em formas incompletas ou fragmentadas. Bloke é o único que sobreviveu relativamente intacto.

Em 1952, um incêndio de nitrato no alto de um edifício no centro de Melbourne provocou a destruição da biblioteca cinematográfica de uma antiga instituição, a Cinema Branch of the Deparment of Commerce. Realizadora de curtas institucionais e documentários, ela havia efetivamente fechado no final dos anos 30. Seu chefe, Lyn T. Maplestone, foi um dos primeiros defensores da preservação de filmes, e parece que a instituição realizou alguns passos para salvar filmes importantes, ainda que seja improvável que um dia se saiba que filmes eram estes. Milagrosamente, duas caixas de filmes sobreviveram ao incêndio: elas foram enviadas para o Departamento de Cinema da Biblioteca Nacional do Commonwealth em Canberra, e, no exame de seu conteúdo, encontrou-se uma cópia de nitrato completa de The Sentimental Bloke.

O chefe da Divisão, Larry Lake, foi rápido em reconhecer a qualidade do material, e em 1954 foi enviado ao Laboratório de Sydney para duplicação. A um técnico novato do laboratório chamado Anthony Buckley foi dada a tarefa de refazer as emendas da cópia tintada. Intrigado, ele guardou todos os pares de fotogramas adjacentes aos cortes: anos depois, ele iria ter um grande papel na redescoberta do interesse pela história de cinema australiano, no desenvolvimento do Acervo Nacional de Imagem e Som (NFSA) e – finalmente – se tornaria um grande produtor por conta própria. (Ele acabaria por doar os fotogramas para o Acervo e, em conseqüência, permitir o registro das tintas e tonalidades originais).

As cópias em 16 mm criadas pelo negativo de acetato da Biblioteca começaram então a circular em sociedades cinematográficas e festivais; Bloke, e o próprio Longford, foram redescobertos. Longford deixou um documento pungente sobre seus sentimentos ao assistir novamente o filme após tantos anos: nesta época, todos os demais envolvidos na produção estavam mortos e a projeção foi, ao mesmo tempo, doce e amarga.

Passemos a 1973. Como um jovem preservador de filmes, eu realizei uma viagem de estudos por cinematecas estrangeiras que acabou por me levar a George Eastman House, Rochester, EUA, e seu curador legendário, James Card. Eu havia ouvido rumores que George Eastman House tinha uma cópia em nitrato de The Sentimental Bloke e eu queria confirmar isso, então perguntei a Card se tal título o lembrava de alguma forma. Ele me respondeu que achava que tinham alguma coisa. Atravessamos a neve para chegarmos às salas de nitrato. Jim abriu uma das salas, que vasculhamos durante um tempo. Então eu me deparei com seis latas etiquetadas de The Sentimental Blonde. Era demais para ser uma coincidência, então eu abri a primeira lata, estiquei o rolo até o título principal e vi os créditos de Raymond Longford. Era o negativo original de The Sentimental Bloke. Não posso descrever como senti ao averiguar aquelas seis latas. Cada preservador guarda seus momentos de grandes descobertas.

Como o negativo chegou a Eastman House? Ninguém sabia, mas é provável que tenha chegado lá com uma coleção de filmes silenciosos, talvez do estoque de um distribuidor falecido. Como dito anteriormente, quando os produtores australianos conseguiam um lançamento internacional, eles não tinham outra alternativa além de enviar o negativo original para a feitura de cópias de exibição, e frequentemente, também de remontagens: não existia película para internegativo satisfatória, e mesmo se houvesse, os produtores australianos não poderiam pagar por ela. Os negativos eram raramente devolvidos: não havia demanda posterior de exibição no país de origem e o custo do frete era injustificado.

Encontrar o negativo é uma coisa: ter acesso a ele é outra. Sobrecarregados e mal financiados, cinematecas podem ser incrivelmente lentas para lidar com empréstimos e solicitações de duplicações quando há outras prioridades. Enfim, quando Paolo Cherchi Usai tornou-se o curador de Eastman House, uma troca foi combinada, em que uma cópia de preservação de Eastman – uma linda cópia positiva, de alta densidade, feita a partir do negativo original – foi emprestada a NFSA. Visualmente, ela era muito superior a versão existente vinda do “Cinema Branch”. Mas havia diferenças: ela era mais curta (muitas cenas haviam sido cortadas e diminuídas), continha alguns planos a mais, e todos os intertítulos estavam em gírias americanas!

Uma grande restauração – baseada principalmente nas imagens da cópia de Eastman e nos intertítulos original de CJ Dennis – foi empreendida, com o lançamento previsto para Setembro de 2001 – e a história toma seu próprio rumo. As tintas e as tonalidades serão restabelecidas usando os fotogramas de Anthony Buckley como referência. E podemos agradecer a uma série de pessoas – e à prudência – pela sobrevivência de um dos tesouros da cinematografia australiana.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Cinematecas e Universidades

Depois de um tempo ausente devido aos compromissos finais do doutorado, volto a atualizar com mais frequência o blog. Para retomar os trabalhos, coloco um texto inédito. Em 23 de setembro de 2010, participei da mesa de debate “Memória e Preservação do Audiovisual Brasileiro Hoje”, como parte do V Encontro de Comunicação Contemporânea – 2° Simpósio de Estudos de Cinema e Audiovisual, na Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo. O post abaixo é uma versão elaborada a partir das anotações que orientaram minha fala naquela ocasião.

Sobre o tema da preservação audiovisual no Brasil, hoje, eu poderia abordar diversos temas, como a necessidade cada vez maior de uma discussão sobre a ética na restauração de filmes em conseqüência, sobretudo, de outro assunto importante, que é o advento das tecnologias digitais e seu emprego no campo da preservação. Eu poderia ainda traçar um panorama das instituições brasileiras que possuem acervos audiovisuais e discutir a situação delas no contexto atual.

Entretanto, prefiro me ater, neste momento, ao lugar de fala da posição na qual me sinto mais confortável: a de pesquisador de cinema. Essa questão do lugar de fala é fundamental, lembrando que fragilidade do campo da preservação se reflete na própria indefinição na (auto)definição dos profissionais que nela atuam: Eles são (nós somos) preservadores, preservacionistas, técnicos de preservação ou arquivistas audiovisuais? Eu me lembro que numa mesa cujo tema girava em torno de Paulo Emílio Salles Gomes no X Encontro da SOCINE, em 2006, meu colega Fausto Douglas Correa Jr questionou se devia chamar Paulo Emílio de “cinematequeiro” ou de “conservador de filmes”. Como a discussão estava enverendando pelo viés político – no mesma encontro, o professor Arthur Autran causou polêmica ao alinhar o pensamento de Paulo Emílio ao do ISEB – alguém brincou que não era apropriado alcunhar Paulo Emílio de conservador...

De qualquer modo, o ofício de pesquisador, voltado para o estudo da memória e construção da História, está indissociavelmente ligado ao trabalho de preservação, de conservação dos rastros e traços de um passado que subsidiam necessariamente a pesquisa.

Entretanto, essa relação se coloca frequentemente como uma oposição, uma falsa dicotomia que opõe teoria e prática, trabalho intelectual e manual, o pensador e o técnico, o universo acadêmico e o dos arquivos, entre, digamos a SOCINE e a ABPA.[1] Como um dos poucos que freqüenta regularmente esses dois fóruns e transita entre esses dois universos, eu sustento que essa relação falsamente colocada como oposição precisa ser de diálogo, de uma colaboração não somente importante, como necessária e benéfica.

Mais especificamente no campo de estudos sobre a história do cinema brasileiro, essa relação sempre se mostrou das mais produtivas. E isso pode ser traduzido na mera menção a alguns nomes, como o do já citado Paulo Emílio Salles Gomes, que não foi somente uma das principais forças por trás da criação da Cinemateca Brasileira (ex-Filmoteca do Museu de Arte Moderna de São Paulo), como também um dos maiores pensadores do cinema brasileiro e o primeiro autor de uma tese de doutorado sobre cinema nacional no país. Em seu estudo sobre o cineasta mineiro Humberto Mauro e a revista Cinearte, o autor já evidenciava a complementaridade de saberes do âmbito acadêmico e do das cinematecas, refletido na reflexão sobre a materialidade do filme com um rigor que, infelizmente, poucos de seus seguidores mantiveram. Ao abordar o filme Thesouro Perdido, por exemplo, Paulo Emilio não deixava de ressaltar como as degradações do tempo necessariamente influenciavam sua análise da obra devido à alteração da velocidade original e ao acesso somente a cópias feitas a partir de contratipagens que não reproduziram as viragens originais, e em bitola 16mm, quando o filme fora feita em 35mm. Segundo suas palavras: “com os valores plásticos alterados pela redução de formato, não são poucas as dificuldades que esperam um observador interessado em proceder a um exame minucioso da fita”.[2]

Ainda assim, a tradição pauloemiliana teve continuidade em São Paulo através de nomes que manifestaram, como ele, uma atuação tanto acadêmica (USP) quanto cinematequeira (Cinemateca Brasileira), bastando citar, por exemplo, Jean-Claude Bernardet, Maria Rita Galvão, Ismail Xavier, Carlos Roberto de Souza ou José Inácio de Melo Souza.

No Rio de Janeiro – do qual posso falar com mais propriedade – acredito que a situação seguiu de forma um pouco diferente. A Cinemateca do MAM – principal arquivo de filmes do Rio, como a Cinemateca Brasileira em São Paulo – nasceu como parte do agitado “caldo cultural” da então capital cultural do país que abrangia, no caso do cinema, atividades ligadas a cineclubes, cursos livres, mostras e publicações. Depois de sua consolidação nos anos 1950, a principal liderança da Cinemateca a partir da década seguinte foi Cosme Alves Netto. Diferente de um intelectual e futuro acadêmico como Paulo Emílio, Cosme estava mais próximo da linha de um Henri Langlois, da Cinemateca Francesa, com seu papel de dinamizador ou agitador cultural, estabelecendo uma ligação intensa com os realizadores (a Cinemateca do MAM produziu, co-produziu e colaborou com diversos filmes) e com a atividade na crítica da imprensa diária. Assim, diferentemente da linhagem uspiana em São Paulo, os principais nomes ligados à Cinemateca do MAM transitaram entre o universo dos arquivos de filmes e a imprensa escrita, bastando citar o nome de críticos consagrados como Antônio Moniz Vianna, Alex Viany, José Carlos Avellar ou Ronald Monteiro.

Para acelerar um pouco esse relato, devo apontar que, nos anos 1980, os arquivos carioca e paulista seguiram caminhos diferentes. Em 1984 a Cinemateca Brasileira, privada, foi incorporada ao governo, enquanto a Cinemateca do MAM permaneceu ligada a um museu privado cuja proeminência decrescia. Foi justamente nesse período que a decadência da Cinemateca do MAM se acentuou, acompanhando tanto o esvaziamento cultural e econômico do Rio de Janeiro, quanto o surgimento de uma nova cinefilia ligada à cineclubistas tornados exibidores profissionais – o Cineclube Estação Botafogo que deu origem ao Grupo Estação e ao Circuito Arteplex – e a novos centros culturais como o CCBB.

Por outro lado, enquanto em São Paulo a ligação entre a USP e a Cinemateca Brasileira se enfraqueceria, seria somente a partir dos anos 1990 que se fortaleceria a relação entre a Cinemateca do MAM e a Universidade Federal Fluminense (UFF), na vizinha Niterói, através especialmente de ex-alunos e professores como José Carlos Monteiro, João Luiz Vieira e Hernani Heffner. Esses dois últimos são nomes fundamentais nessa história recente.

A partir dos anos 2000, especialmente em face da crise que se avizinhava da Cinemateca do MAM, João Luiz Vieira – professor da UFF e ex-curador da Cinemateca nos anos 1990 – começou a organizar visitas periódicas de seus novos alunos aos arquivos de filmes do MAM. Desde 1996 o responsável técnico pelo setor era o pesquisador tornado preservador Hernani Heffner, que passou também a dar um curso optativo sobre preservação audiovisual na graduação da universidade, despertando o interesse de vários estudantes de cinema sobre o tema. [3]

Sobre essa história – relatada em detalhes no trabalho de Ines Aisengart[4] – interessa apontar que a aproximação da UFF com a Cinemateca do MAM se deu às vésperas da crise que quase significou o fim da própria Cinemateca e que teve como mais valentes defensores não os cineastas das antigas gerações cultivadas à sombra do já falecido Cosme, mas sim os jovens universitários que tinham recém descoberto sua existência e valor. Essa crise do arquivo carioca coincidiu, por outro lado, com o acelerado desenvolvimento estrutural e institucional da agora federal Cinemateca Brasileira, favorecendo a afirmação de uma prática centralizadora na política de preservação audiovisual no país que, por sua vez, já era defendida desde os anos 1980.[5]

Foi nesse momento que eu, recém-formado pela UFF, me aproximei de forma mais intensa da Cinemateca, sendo contratado justamente para identificar rolos de filmes a serem despachados em meio ao que foi chamado de despejo da Cinemateca pelo Museu de Arte Moderna. Ou seja, entrei na Cinemateca quando ela estava no fundo do poço. Curiosamente, sem experiência prática em preservação, minha contratação se deveu justamente pelo meu conhecimento sobre o passado do cinema nacional que auxiliaria no reconhecimento dos filmes na mesa enroladeira, já que eu havia sido monitor do então professor da UFF Hernani Heffner na disciplina “História do Cinema Brasileiro”.

Trabalhei durante seis anos ininterruptos na Cinemateca do MAM no que considero ter sido uma verdadeira pós-graduação. Paralelamente, fiz também mestrado e doutorado na UFF (outros seis anos...), e essa dupla vivência pessoal é que me faz ter certeza da complementaridade de ambas as formações. A Universidade é tão essencial para a Cinemateca, quanto a Cinemateca é essencial para a Universidade. Uma permite a reflexão, a produção bibliográfica e a formação de mão-de-obra. A outra fornece as obras, os materiais, o ambiente a ser explorado e aproveitado pelos professores e alunos. Uma talvez favoreça a captação de verbas e bolsas de estudo, enquanto a outra oferece um amplo universo de obras e assuntos a serem explorados pela nossa geralmente tão repetitiva e monótona academia. Assim como a preservação e o acesso, que dependem e se justificam um pelo outro, cinematecas e arquivos são duas faces da mesma moeda.

No recente painel organizado na Cinemateca do MAM uma discussão que teve grande desdobramento foi sobre a dificuldade de continuidade e estabilidade profissional no campo da preservação audiovisual no Brasil. Lila Foster levantou um questionamento importante: “Como é possível atuar em preservação não estando ligado institucionalmente a uma Cinemateca?” Posso aproveitar a deixa e perguntar também: “Como é possível atuar em pesquisa não estando ligado institucionalmente a uma Universidade?”[6]

Acredito, porém, que um cenário ideal a ser perseguido é um panorama no qual seja possível trabalhar com pesquisa numa Cinemateca e que seja possível trabalhar com preservação na Universidade. Atualmente, o que ocorre são mestrandos, doutorandos e professores doutores caírem de pára-quedas nas Cinematecas atrás de filmes e temas para suas teses e pesquisas – sendo vistos como parasitas ou transtornos pelos preservadores, que, por sua vez, são encarados como técnicos e burocratas que impedem ou dificultam o trabalho de reflexão –, ou os funcionários dos arquivos serem obrigados a ingressarem em programas de pós-graduação para realizarem pesquisas (e ganharem bolsas de estudo) que poderiam desenvolver nas suas próprias instituições.

No Rio de Janeiro, tivemos uma experiência interessante de pesquisa e reflexão ligada à Cinemateca do MAM e sem um obrigatório vínculo direto com a academia. Através do cineclube Tela Brasilis – posteriormente transformado na Associação Cultural Tela Brasilis – organizamos em parceria com a Cinemateca, em 2005 e 2006, um curso de História do Cinema Brasileiro, no Cinema Odeon. Organizado em dois módulos com seis meses de duração cada um e ministrado por Hernani Heffner com projeção de cópias em película de diferentes arquivos, o curso foi um sucesso absoluto, com mais de quinhentos alunos inscritos numa iniciativa certamente mais interessante que 99% dos cursos semelhantes organizados nos departamentos de cinema das universidades brasileiras atualmente. [7]

De qualquer modo, a relação entre Cinematecas e Universidades também se presta para a defesa da necessidade de uma política descentralizadora para a preservação audiovisual no Brasil. Hoje certamente ninguém mais argumenta a favor da idéia de que apenas uma Universidade, por melhor que seja, é suficiente para todo o país. Pelo contrário, cada vez mais se defende a regionalização e a criação de novas universidades federais fora das regiões tradicionalmente mais desenvolvidas economicamente do país. Do mesmo modo, é necessária a expansão e regionalização dos arquivos de filmes e das atividades de preservação talvez associadas – por que não? – às próprias universidades. Afinal, não bastam os cursos de cinema da UFF, no Rio, ou da USP, em São Paulo. São precisos novos cursos, no Sul, Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Nos Estados Unidos, as grandes universidades têm acervos audiovisuais próprios ou algum convênio com arquivos de filmes da mesma localidade. Dependendo do tema, o pesquisador irá à Universidade de Chicago, de Los Angeles ou de Nova York. No Brasil também não basta ter só uma Cinemateca Brasileira e não cabe querer citar o exemplo da Cinemateca Francesa ou da Filmoteca Española – na França e Espanha também há várias e importantes cinematecas regionais –, devendo-se olhar também para os Estados Unidos, onde os acervos estão espalhados pela UCLA, pelo MoMA, pela Library of Congress e muitas outras instituições, todas compartilhando tarefas e responsabilidades.

Novas reflexões sobre o cinema devem implicar também em novas posturas no campo da preservação audiovisual. A valorização da recepção para a experiência cinematográfica, o entendimento do cinema como prática ou evento, a ampliação do interesse para além do longa-metragem de ficção (atentando, por exemplo, para os negligenciados filmes familiares, amadores, institucionais, publicitários etc.) precisam resultar em mudanças de atitudes na cadeia de preservação (prospecção, conservação, classificação e acesso). Por fim, o advento das tecnologias digitais que vem maximizando, acelerando e democratizando a produção e circulação de conteúdos audiovisuais também demanda, na mesma medida, uma prática de preservação mais ampla, descentralizada, democrática, participativa e ágil. Embora destinados a guardar a memória do passado, os arquivos audiovisuais tem que se espelhar no presente para definir um novo papel no futuro.



[1] Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual (Socine) e Associação Brasileira de Preservação Audiovisual (ABPA)

[2] GOMES, Paulo Emílio. Humberto Mauro, Cataguazes, Cinearte. São Paulo: Perspectiva, 1974, p. 146.

[3] Sobre a trajetória de Hernani no campo da preservação, conferir meu outro artigo no blog.

[4] MENEZES, Ines Aisengart Menezes. Memorial crítico na área de preservação audiovisual, Monografia de conclusão de curso – Departamento de cinema e vídeo, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2009.

[5] Para isso basta ler nas entrelinhas do livro Cinemateca Imaginária (Embrafilme, 1981), organizado por Carlos Augusto Calil, então diretor da Cinemateca Brasileira (cabe aventar, aqui, a abrangência da influência da experiência de Calil na Cinemateca da Alemanha Oriental...)