quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Guia do Projecionista - parte I



Este documento, produzido em forma de pôster, tem uma dupla importância. De um lado, com a inevitável conversão para a projeção digital, assume uma grande relevância histórica ao registrar as questões técnicas corriqueiras associadas com a projeção cinematográfica no tempo da película - e antes ainda do advento do som digital e do desaparecimento do som magnético.
Por outro lado, como a projeção de cópias em películas ainda prosseguirá mais alguns anos - se não no circuito comercial, pelo menos em centros culturais e cinematecas - este documento traz uma expertise que está em vias de extinção. Afinal, não só os equipamentos (projetores e peças de reposição) estão sumindo do mercado, como também os profissionais habilitados para manuseiar e reparar esse tipo de aparelhagem.
O texto foi transcrito de um exemplar deste pôster encontrado no Departamento de Cinema e Vídeo da Universidade Federal Fluminense pela Prof. Elianne Ivo. Esta é a primeira parte. A segunda virá num próximo post.



GUIA DO PROJECIONISTA – CTAv – Embrafilme - MinC

Introdução
Este guia tem por finalidade ajudar o projecionista no sentido de melhorar a qualidade de projeção. Aqui você encontrará diversos problemas que podem ocorrer no projetor, no sistema de amplificação etc., com suas possíveis causas e soluções. Desenhos esquemáticos da cabine de projeção e de um projetor com seus componentes básicos ajudarão você a identificar cada parte mencionada pelo texto. Além disso, o guia traz também algumas recomendações práticas que devem ajudar ainda mais o trabalho do projecionista.
Devido a grande quantidade de marcas e modelos de equipamentos de projeção e amplificação de som, o guia não pôde evidentemente abranger todas as diferenças e dificuldades que variam de aparelho para outro. Mas foram abordados aqui os problemas de maior frequência de acordo com levantamentos feitos junto a projecionistas experientes.
No caso de surgir uma complicação maior, chame logo um técnico especializado (Relação no Item Apoio Técnico).

Importância do projecionista
O processo de produção de um filme envolve diversas etapas: filmagem, revelação, montagem, mixagem e cópia final. Cada etapa, por sua vez, envolve dezenas de pessoas que tiveram o máximo de cuidado para que o filme tivesse a melhor qualidade técnica possível. A etapa final de todo esse processo e certamente uma das mais importantes é a projeção. É aí que vai ser mostrado o esforço da equipa, a visão do fotógrafo, os feitos sonoros etc. É portanto a partir da projeção que o trabalho de toda a equipe, inclusive do projecionista, passa a ser julgado pelo público e pela critica que dirão se o filme é bom ou rim.
Logo, cabe ao projecionista tomar certos cuidados desde o recebimento da cópia até a sua devolução à companhia distribuidora. Só assim ele poderá obter a melhor projeção possível, mostrando imagens e efeitos sonoros e visuais conforme foram produzidos originariamente, além de preservar a cópia, deixando-a em boas condições para a próxima exibição.
Todo esse cuidado beneficia o cinema como atividade e também valoriza a profissão.
Esperamos que este guia ajude bastante aos projecionistas no seu trabalho.

Recomendações práticas
A preparação é uma fase muito importante, pois ela permite ao projecionista identificar previamente alguns problemas que poderiam surgir durante a exibição do filme. Esta fase envolve a verificação, a limpeza, o ajuste e a regulagem de diversos itens antes do início da sessão para se reparar qualquer eventualidade.

Verificação e limpeza
A cópia do filme – O projecionista deve verificar se a cópia do filme que vai ser exibida está completa, com todas as suas partes, e deve efetuar imediatamente a sua montagem, com todo o cuidado necessário.
A lubrificação da cópia – Todas as cópias já devem vir do laboratório lubrificadas. No caso de cópias ressecadas (normalmente as cópias velhas e/ou mal conservadas), o projecionista deve fazê-la usando esponja macia e silicone líquido.
A cópia deve ser colocada sobre uma mesa e o silicone aplicado com a esponja, em movimentos suaves e circulares sobre as suas laterais.
ATENÇÂO: A esponja deve ser apenas levemente umedecida com silicone, pois as imagens e a pista de som não podem ser atingidas pelo silicone.
O sistema de transporte da cópia (roletes, quadro compressor, tambor de tração, debitadores etc.) – Todo o sistema deve ser revisado. Deve-se eliminar toda a oleosidade e sujeira que estiverem acumuladas nos roletes, na régua etc. Os roletes devem estar alinhados e o projecionista deve verificar a sua tensão e liberdade de giro. A tensão da régua do quadro compressor e também dos patins deve ser verificada e ajustada, caso seja preciso. Havendo necessidade de lubrificação, não hesite em fazê-lo, mas tomando cuidado para não deixar vestígios de óleo nos roletes e outros componentes. Óleo acumula poeira que arranha a cópia. A lanterna – verifique o estado dos carvões ou da lâmpada Xenon fazendo a troca, se necessário.
Limpe os espelhos, retirando primeiro a poeira com um pincel macio ou jato de ar, e depois a oleosidade, com água e sabão neutro.
Depois verifique a distribuição da luminosidade na tela, fazendo os ajustes necessários.
As lentes – As lentes devem estar livres de poeira e de manchas de óleo (não toque nas lentes, pois a mão possui uma oleosidade que mancha a lente).
Para limpeza utilize primeiro um pincel macio para retirar a poeira e depois água e sabão neutro, em pequena quantidade, para retirar a oleosidade.
Se possível utilize um kit de limpeza para lentes (Kodak Lens Cleaner ou similar nacional) encontrado em lojas de cine e foto.
Após essas verificações, carregue os projetores com a cópia e deixe rodar por alguns minutos o suficiente para ajustar o foco e o nível do som. Não esqueça também de limpar as janelas de vidro ou vigias para não perder a luminosidade. Para isso, utilize água e sabão neutro.
Procedendo desta forma você estará evitando a ocorrência de vários problemas, citados neste guia, que poderiam vir a acontecer durante a projeção.

Ajustes e regulagens
A régua – Por meio de dois parafusos conjugados a molas pode-se aumentar ou diminuir a tensão da régua do quadro compressor, conforme a necessidade. Normalmente estes parafusos reguladores de tensão encontram-se na parte central do quadro compressor.
Os roletes – Os roletes devem girar livremente em torno de seus eixos e alinhados no sistema. Existem dois sistemas de regulagem de roletes: o primeiro é simplesmente um parafuso que funciona como eixo e tensionador; o segundo é uma mola que regula a tensão, ou melhor, a liberdade de giro do rolete. Independente do sistema, com uma simples chave de fenda você consegue regular a tensão, alinhar o rolete. Não deixe de verificar o estado da lubrificação, fazendo-a sempre que necessário.
OBSERVAÇÃO: A lubrificação deve ser feita com cuidado e sem excesso. A quantidade de óleo deve ser suficiente apenas para envolver com uma fina camada as superfícies a serem lubrificadas.
Use óleo de máquina Singer para lubrificar os componentes mecânicos. Para as engrenagens, caixa do conjunto intermitente, etc., use um óleo de maior viscosidade (por exemplo SAE 30).
Os patins – Há entre os debitadores e o tambor de tração, uma folga ideal em relação a seus respectivos patins. Para ajustar essa folga junte dois pedaços de filme um sobre o outro. Carregue este “duplo filme” entre o debitador e o patins. Aperte o patins até não ser mais possível mover o filme. Depois vá diminuindo o parto até sentir que o “duplo filme” começa a ficar livre. Está a folga necessária aos patins.
O burrinho – O burrinho serve para manter constante a distância entre os carvões positivo e negativo. À medida que os carvões vão se gastando, automaticamente o burrinho faz com que o carvão positivo se aproxime, a uma velocidade adequada, do carvão negativo, para manter a distância constante entre os dois pólos.
Caso essa velocidade esteja excessiva ou reduzida, regule-a através do comando (manipulador) situado na parte da lanterna junto ao projetor.

Som
Atualmente uma grande parte dos cinemas do Brasil já possui sistemas de som estéreo que são usados quando se apresentam filmes gravados em DOLBY STEREO.
O bom projecionista deve ser consciente ao posicionar as chaves de controle do som, para filmes em estéreo.
Filmes mono devem ser projetados com as chaves selecionadas para “mono” e somente filmes gravados em estéreo devem ser projetados em “stereo”. Atenção com os “trailers”!
Para identificar de que tipo é a cópia que você tem em mãos, verifique as informações contidas na lata ou no começo da cópia. Alguns filmes que foram originalmente gravados em DOLBY STEREO (inclusive conforme informações dos cartazes) possuem algumas cópias gravadas em mono.
Outro ponto importante diz respeito ao volume sonoro com o qual se projeta a cópia. É frequente encontrarmos casos de cinemas que, independentemente das circunstancias, ou seja, para projeções de filmes diferentes, ou para sessões diferentes (diferentes quantidades de público) projetam sempre com botão de volume na mesma posição. Isto é errado, pois a intensidade do som que chega aos ouvidos do espectador varia com o filme, com a cópia, e, principalmente, com a quantidade de pessoas dentro da sala de projeção em cada sessão.
Sendo assim, aconselhamos ao projecionista regular o botão de volume para um nível confortável, baseando-se a cada sessão nas informações de seus colegas de trabalho (gerente, lanterninha...).
Lembre-se que salas vazias exigem menos volume, e salas cheias exigem mais volume.

Os tipos de lanterna
Em projetores de 35mm ou 70mm são utilizados basicamente dois tipos de fonte de luz: carvão ou lâmpada Xenon.
A carvão.
Este tipo de fonte de luz era muito utilizado antigamente, mas hoje em dia vem sendo gradativamente substituído pelas lâmpadas Xenon. Lanterna a cavão consiste no resultado de uma grande aproximação de dois eletrodos de carvão, que formam um caro elétrico de alta intensidade luminosa.
A Xenon.
É o sistema mais utilizado atualmente, com enormes vantagens práticas e econômicas sobre o carvão, e que consiste em um tubo de quartzo, contendo gás Xenon, a uma pressão em torno de dez atmosferas. Dois eletrodos dentro do tubo, situados a uma curta distância um do outro, irão permitir à lâmpada produzir uma grande quantidade de luz. Para isso, é necessária a ignição da lâmpada, que é feita com a aplicação de um pulso de aproximadamente 30.000V a uma frequência entre 20 e 30 kHz. A duração deste pulso deve estar em torno de 0,5 s (um leve toque do dedo no disparador).
Lanternas a Xenon devem ser dotadas de eficientes meios de circulação de ar, seja por aspiração ou expiração. O fluxo de ar deve passar pelo bulbo da lâmpada.
CUIDADO: Lâmpadas Xenon acesas ou logo depois de apagadas podem atingir pressões internas próximas de 30 atmosferas, sendo muito alto o risco de explosões, seja por variações bruscas de temperatura (“golpes de ar”) ou até mesmo pelo encostar de um dedo no quartzo. Portanto, mantenha sempre a lanterna fechada em qualquer circunstância. No caso de efetuar limpeza ou reparos no interior da lanterna, proteja-se utilizando uma máscara de proteção para o rosto. Mantenha sempre limpa a superfície da lâmpada, principalmente no caso de toque acidental com os dedos. Com cuidado, utilize álcool 96º GL para remover a gordura.
Muito importante
É muito econômico, tanto em termos de duração da lâmpada (vida útil) quanto de consumo de energia elétrica, manter as lâmpadas continuamente acesas enquanto houver sessões. Deve-se manter o sistema de refrigeração das lanternas ligado por aproximadamente mais 10 minutos após a última sessão. Além disso, as lâmpadas devem ser acesas pelo menos 15 minutos antes de se iniciar a primeira sessão, dando tempo de se estabilizar o fluxo luminoso.
Ajuste da lanterna
Para melhor distribuir a luminosidade na tela existem três tipos de regulagens possíveis na lanterna
- ajuste vertical;
- ajuste horizontal;
- foco.
Primeiro regule o foco sem a objetiva. A lâmpada estará no foco quando se obtiver a menor mancha circular preta no centro da tela.
Em seguida regula os ajustes vertical e horizontal até atingir uma distribuição homogênea da luminosidade, ligeiramente mais clara no centro da tela.
A corrente elétrica da lanterna
Podemos dividir as lanternas de projeção em dois tipos: carvão e Xenon.
As lanternas são alimentadas por corrente contínua (CC) fornecida por retificadores, que são aparelhos que convertem a corrente alternada (CA) existente nas tomadas elétricas em corrente contínua.
Geralmente estes aparelhos têm sua entrada alimentada por uma rede CA de três fases, fornecendo na saída uma CC, com baixa tensão (aproximadamente 25V) e alta corrente (em torno de 80A).
Estes retificadores são equipados com medidores de corrente (amperímetros) que dão uma indicação visual da corrente que está alimentando a lanterna.
Observação: No caso mais comum, temos no cinema dois retificadores (um para cada projetor), que eventualmente podem estar alojados na mesma estrutura metálica. Neste caso, existirão dois amperímetros, que podem estar situados no próprio retificador ou nas lanternas.
As lâmpadas Xenon têm uma faixa ideal de corrente de operação, que vai variar com a potência da lâmpada e com o fabricante. Para saber a corrente correta de operação da lâmpada, consulte o manual que a acompanha.
O ajuste da corrente de operação é feito no retificador que, para tal, geralmente possui placas de cobre móveis, que podem ser posicionadas para uma corrente adequada.
Lembramos que este ajuste só deve ser feito quando o retificador já estiver desligado há alguns minutos.
A intensidade de luz é proporcional ao valor da corrente, ou seja, quanto mais corrente, mais luz.
Apoio técnico:
Normas técnicas para cinema. Centro Técnico do Audiovisual/ Embrafilme.
Som
TCE – Transisom Cine Eletrônica Ltda.
Ótica
Cinemateca Brasileira (Sr. João Sócrates).
Optotécnicas (Sr. Hans Geiser)
Mecânica
Centauro – equipamentos de Cinema e Teatro Ltda.
CTV – Comércio e Serviços Ltda.
Laboratório
Líder Cine Laboratórios Ltda.
Curt & Alex Laboratórios Cinematográficos.


Bibliografia:
1 – Projectionist’s Troubleshooting Guide (Kodak Publication, n. 5)
2 – Motion-Picture Projection and Theatre Presentation Manual (Society of Motion Picture and Television Engineers, Inc).
3 – Guia Técnico do Cinematografista. Thiers T. B. Conselho Júnior. (Editora S. Vicente, 1964).

Agradecimentos especiais: Joelson Estevão (Projecionista), Elie Bessos (Transison Cine Eletrônica Ltda), Marcia Bello de Lamata (Datilografia).
Autoria: Marcos Ferreira Martins (Engenheiro Mecânico), Márcio Rubem da S. Meirelles (Engenheiro Eletrônico)
Concepção: Affonso Beato (Superintendente do CTAv).
Produção: Setores de Engenharia e de Treinamento do CTAv.

3 comentários:

Helder Martinovsky disse...

Boa noite. Parabéns pelo trabalho!!!
Onde encontro o livro O GUIA TÉCNICO DO CINEMATOGRAFISTA?
Obrigado!
Helder

Rafael de Luna disse...

Olá, Helder. Trata-se de um poster e não de um livro! abs. Rafael

cleia cardoso disse...

Bom mesmo