quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Museus audiovisuais, parte 3 - MIS Camboriú

Foto tirada por mim no Deusches Museum
Sempre me interessei pelos museus audiovisuais, aquelas instituições geralmente dedicadas a preservar e expor artefatos relacionados, sobretudo, às tecnologias de registro e reprodução de sons e imagens em movimento. São instituições que, frequentemente, abarcam tecnologias antigas e novas, misturando o analógico e o digital. Em posts anteriores, falei do Living Computer Museum, de Seattle, que visitei em 2014, dedicado à história dos hardwares e softwares de computadores, e também,num segundo post, por conta da exposição que visitei no Rio de Janeiro, "A Era dos Games", em 2018, mencionei o Musee Mecanique, em San Francisco, que conheci também em 2014, discutindo a preservação dos videogames em seus joysticks originais, e o amplo universo, que o cinema se inseriu, dos "coin-in-the-slot-machines" ou arcades. Podem ser chamados também de museus, embora restritos geralmente a uma única obra, espaços que ainda permitam a experiência de visitar um panorama ou diorama original.
Entretanto, o mais comum em museus audiovisuais é a exposição de câmeras, projetores e outros equipamentos relacionados ao cinema, assim como aparatos óticos e fotográficos relacionados ao que se chamava de "pré-cinema". É o caso de alguns conhecidos museus, com belos acervos, como o Museum of the Moving Image, em Nova York, que pude visitar antes e depois de uma enorme renovação. Alguns museus estão ligados a cinematecas, como Le Musée de la Cinématèque, da Cinemateca Francesca e sua fantástica exposição permanente, que inclui tanto belas peças da coleção Will Day, quanto raridades reunidas por Langlois, como figurinos e objetos cenográficos de filmes como Metropolis ou Gabinete do Dr. Caligari. Há também belas coleções em museus mais amplos, como o Deutsches Museum, museu da ciência e tecnologia de Munique, onde estive em 2013.
Exposição "Galáxia(s) de cinema" no MAM-RJ
Às vezes são também pequenas instituições independentes, como o incrível Museu del Cinema, na pequena cidade espanhola de Girona, que conheci em 2007.
No Brasil, porém, infelizmente não tínhamos até recentemente um bom museu audiovisual. Nossos MIS's (Museus da Imagem e do Som) são mais próximos a centros culturais ou arquivos de filmes, às vezes possuindo acervos mais ligados à música, como no MIS-RJ. Nossas cinematecas, a rigor, se dedicam mais a preservar filmes do que artefatos, como é o caso da Cinemateca Brasileira. A Cinemateca do MAM-RJ, apesar das dificuldades, tem realizado exposições eventuais, reunindo peças de seu acervo e de acervos particulares, como na recente exposição Galáxia(s) de Cinema, em cartaz até o início deste ano.
A verdade é que os principais acervos de artefatos audiovisuais se encontram nas mãos de colecionadores particulares, como Ivo Raposo , que depois de inaugurar sua réplica do Metro Tijuca em seu sítio em Conservatória (RJ), mais recentemente passou a expor também parte de seu enorme acervo de projetores e outros equipamentos. Não visitei ainda, mas há também o Museu de Cinema Carlos Scalla, em Muriaé (MG). Há outros ainda, em diferentes partes do país.
Assim, já há algum tempo que acompanho notícias sobre a construção do Museu da Imagem e do Som de Balneário Camboriú, como postei aqui mesmo no blog em 2013. Inaugurado há menos de um ano, em 2018, nessas férias de julho/agosto finalmente tive a oportunidade de viajar para Santa Catarina e conhecer o museu, criado por Fernando Delatorre, exibidor da cidade e dono de todo o acervo exposto.
Pathé Kok 28mm
Além de empresário e investidor, Delatorre era exibidor, dono do Cinerama Delatorre, Cine Itália e Autocine, na cidade de Balneário Camboriú, negócio iniciado pelo seu pai, Eduardo Delatorre. Hoje todas as salas estão fechadas. O cine Itália, porém, se transformou no Centro de Eventos Itália (e recebe congressos, festas e formaturas). Em frente a ele, Fernando Delatorre ergueu um prédio de seis andares especialmente para receber a coleção de equipamentos que reuniu ao longo de décadas, dando origem ao Museu da Imagem e do Som de Balneário Camboriú, museu privado sem fins lucrativos.
Fonógrafo
Rádio de galena
O museu cobra ingresso de R$ 20,00 (dez a meia entrada para professores e estudantes) e reune um acervo de cinema, rádio, disco, filatelia, numismática e outros assuntos de interesse do colecionador. Grande parte da coleção, porém, dividida pelos diferentes andares do prédio, é dedicada a cinema. Na coleção, encontramos belos exemplares dos tipos mais comuns de artefatos encontrados em geral em museus de cinema: lanternas mágicas, câmeras e projetores antigos (destaque para o projetor Pathé Kok 28mm), tanto de cinema profissional, quanto amador (ótimas peças de Pathé Baby 9,5mm e dezenas de projetores Super 8mm e 16mm).
O museu conta com monitores e informações impressas, escritas em textos indicados para um público mais geral e orientados pelo próprio Delatorre. Seria interessante uma aliança com pesquisadores e acadêmicos para gerar pesquisas e materiais informativos mais aprofundos e precisos.
Há peças muito boas, que são muito difíceis de encontrar no Brasil, apesar de obrigatórias em qualquer museu audiovisual do exterior, como lanternas mágicas em caixas originais e suas devidas placas, ou alguns dos primeiros aparelhos que mostram a continuidade da lanterna mágica para o cinema, como projetores que basicamente acrescentavam manivelas, obturadores e carretéis às lentes e fontes luminosas das antigas lanternas.
O acervo relacionado ao som também é muito bom, com tecnologias obrigatórias bem representadas, como o fonógrafo de Edison, com seus cilindros de cera. Eu, por exemplo, apesar de sempre ler sobre o assunto, nunca tinha visto pessoalmente um rádio de galena, aparelho improvisado e caseiro que era a forma que a maior parte das pessoas, sem recursos para comprar os então caros aparelhos, ouvia rádio nos anos 1920 e 1930 no Brasil.
Muias peças, especialmente os projetores 35mm de maior porte, vieram dos próprios cinemas de Delatorre. Destaque para o Cinemeccanica 35mm/70mm, em perfeitas condições, utilizado no Cinerama Delatorre (que, portanto, não tinha o sistema de três projeções original do Cinerama, mas projetava em bitola 70mm), que está em exposição já no saguão de entrada do museu.
Inteligentemente, a coleção do museu chega até o digital, com uma curiosa e divertida amostra de telefones portáteis (como eram chamados antes da popularização da palavra "celular"), além de disquetes, flop discs e uma bela peça: o primeiro computador utilizado pela prefeitura de Camboriú.


Por fim, apesar de não ser um museu muito interativo, percebe-se o esforço nessa direção. Meus filhos curtiram, por exemplo, poderem escrever pela primeira vez na vida deles em uma, hoje em dia, "antiquíssima" máquina de escrever. Há também dois auditórios, um deles projetando continuamente filmes de Charles Chaplin. Afinal, é um museu não só de um típico colecionador, mas também de um típico fã de cinema. O museu ainda não tem uma taxa alta de visitação - compreensível numa cidade frequentada por certa "elite", sobretudo no verão, quando sua população se multiplica -, mas é uma parada obrigatória para qualquer cinéfilo ou cinemeiro. 
Antônio curtindo a visita dele ao MIS

segunda-feira, 25 de março de 2019

Curso de Preservação e Restauração no México

Uma ótima oportunidade para quem tiver condições: a versão recente do Curso de Verão da FIAF (Federação Internacional de Arquivos de Filmes) vai ocorrer no México, entre 22 e 26 de outubro de 2019. Veja as informações aqui!

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

A Lei de Acesso à Informação e a Cinemateca Brasileira

Estão abertas as inscrições para o edital de Restauro e Digitalização de Conteúdos Audiovisuais do Governo Federal. No momento atual, os recursos destinados a esse edital soam como uma grande oportunidade para a preservação audiovisual.
Dentre as exigências do edital, consta obviamente um laudo técnico sobre as condições físicas dos materiais da obra a ser restaurada ou digitalizada. Aqui, são necessários dois passos: 1 - pesquisar nos acervos os materiais existentes de uma obra (negativo, cópias etc.), 2 - avaliar o estado de conservação de cada um dos materiais.
Os arquivos de filmes tradicionalmente tem dificuldade de lidar com as demandas de informações, quer sobre os materiais existentes, quer sobre seu estado de conservação, sobretudo na rapidez geralmente demandada pelos consulentes. Isso não é de hoje. A novidade, porém, é que a Cinemateca Brasileira, instituição pública federal gerida por uma Organização Social, enviou aos candidatos ao edital um documento com esclarecimentos a respeito das exigências dos editais em que consta uma tabela de preços que a instituição irá cobrar por diferentes serviços.
Entre eles, "Pesquisa de materiais por obra", no valor de 500 reais por obra. Isto é, se você é um pesquisador ou mesmo detentor de direitos de uma obra (seu diretor, produtor, herdeiro etc), vai ter que pagar para saber se a Cinemateca Brasileira tem algum material da sua obra e quais são.
Além disso, cobra também, no valor de 1.200 reais por obra, por "Análise de material", isto é, pelas informações necessárias para preencher o laudo técnico obrigatório para concorrer no edital.
Essas eram informações que os arquivos de filmes no Brasil, privados ou públicos, podiam demorar ou não fornecer adequadamente, mas, que eu lembre, sempre disponibilizaram de graça, pelo menos para os detentores dos diretos ou seus representantes.
A surpresa é maior pelo fato da Cinemateca Brasileira ser o órgão público federal responsável pela preservação do cinema brasileiro. Assim, mesmo eu não sendo advogado, me parece que essa cobrança se choca diretamente com a Lei de Acesso à Informação, regulamentada pelo Decreto 7.724/2012, um dos grandes avanços da nossa legislação no sentido de reconhecer o direto de todo cidadão a informações dos órgãos públicos.
Numa página na internet do próprio Governo Federal, encontramos os principais aspectos da lei:

• Acesso é a regra, o sigilo, a exceção (divulgação máxima)
• Requerente não precisa dizer por que e para que deseja a informação (não exigência de motivação)
• Hipóteses de sigilo são limitadas e legalmente estabelecidas (limitação de exceções)
• Fornecimento gratuito de informação, salvo custo de reprodução (gratuidade da informação)
• Divulgação proativa de informações de interesse coletivo  e geral (transparência ativa)
• Criação de procedimentos e prazos que facilitam o acesso à informação (transparência passiva)

O artigo 4º do Decreto tem a seguinte redação: "A busca e o fornecimento da informação são gratuitos, ressalvada a cobrança do valor referente ao custo dos serviços e dos materiais utilizados, tais como reprodução de documentos, mídias digitais e postagem.
Parágrafo único.  Está isento de ressarcir os custos dos serviços e dos materiais utilizados aquele cuja situação econômica não lhe permita fazê-lo sem prejuízo do sustento próprio ou da família, declarada nos termos da Lei no 7.115, de 29 de agosto de 1983"

Alguém pode vir dizer que não é bem assim, que as cinematecas não podem informar ao público todos os filmes que elas tem, que nunca foi assim etc., baseando-se na antiga visão das cinematecas personalistas (a Cinemateca Francesa de Langlois, por exemplo) como um templo em que um guardião detinha todos os seus segredos e zelava cuidadosamente por eles. Por mais romântica que ela possa soar, essa visão é claramente elitista, privilegiando, como sempre, aqueles que tinham acesso próximo aos guardiões, desprezando o princípio da impessoalidade.

Esse tempo já passou. Uma das maiores e mais importantes cinematecas do mundo, o BFI National Archive (arquivo de filmes do Reino Unido), há alguns anos disponibilizou na internet, para acesso gratuito e público, uma base de dados de todos os materiais de seus arquivos. Veja aqui: http://collections-search.bfi.org.uk/web/search/simple

Se você pesquisar, por exemplo, por Goldfinger (título em português "007 contra Goldfinger", de 1964, com Sean Connery), você tem acesso a informações não apenas sobre materiais correlatos (artigos, fotos, cartazes), como aos materiais fílmicos dessa obra que o BFI possui - as mesmas informações pelas quais a Cinemateca Brasileira cobra 500 reais.

Para provar que eu não estou mentindo, essas são as informações que a base de dados retornou sobre um dos mais famosos filmes do personagem James Bond:

Accessible materials to view (1)

35mm Colour Positive - CTA - Combined - Stock date: 1995 - - C-1559754
 Viewing - Film print can be requested for access (servicing required)

Video materials (1)

  VHS cassette - Video - PAL - - C-590983
          Status pending - Material requires inspection to determine preservation or access status

Film materials (1)

  35mm Colour Positive - CTA - Combined - Stock date: 1995 - - C-1559754
          Viewing - Film print can be requested for access (servicing required)


A ideia por trás dessa decisão do BFI é que os cidadãos tem direito de saber o que as instituições sustentadas pelo dinheiro dos seus impostos guardam em seus arquivos. Qualquer cidadão.
Para ver outro exemplo, não precisamos ir tão longe - o Arquivo Nacional, localizado no Rio de Janeiro, possui em sua base de dados informações sobre todos os seus fundos (é uma instituição arquivísticas) como "Domingos de Oliveira" ou "Roberto Farias" etc. Não há na internet informações sobre cada um dos materiais pertencentes a esses fundos, mas sob demanda, a instituição fornece essas informações gratuitamente, a qualquer consulente, como já comprovei diversas vezes pessoalmente. Repito: esse mesmo tipo de serviço, em São Paulo, numa outra instituição federal, está custando 500 reais.
Portanto, tenho a impressão que a Cinemateca Brasileira está agindo em claro desacordo com a Lei de Acesso à Informação, cobrando por informações que deveriam ser ampla, gratuita e proativamente fornecidas pela instituição, de acordo com a legislação em vigor. 
Ou sou eu estão sendo muito implicante, para variar, e esse é só um esquema inofensivo para a Cinemateca arrancar alguns bem-vindos tostões dos produtores que estão sonhando com os milhões do FSA num raro edital aberto nesse momento cruel em que estamos vivendo?