domingo, 5 de maio de 2013

A preservação audiovisual no Brasil (hoje)

Já tendo havido cobranças por um posicionamento deste blog a respeito da atual situação da Cinemateca Brasileira após a exoneração de seu antigo diretor, transcrevemos este lúcido e pertinente texto de Hernani Heffner, presidente da Associação Brasileira de Preservação Audiovisual, escrito para a lista de e-mails dos associados da ABPA e publicado aqui com a sua autorização.


A PRESERVAÇÃO AUDIOVISUAL NO BRASIL

Prezados Colegas

Tenho acompanhado com vivo interesse as manifestações da lista em torno dos mais diferentes assuntos relativos ao nosso trabalho, com seus percalços e conquistas.

Por temperamento não sou muito dado a uma participação cotidiana em um meio que até hoje não tem muito claras as fronteiras entre o público e o privado, entre manifestações ou colocações de ordem mais pessoal e aquelas de ordem mais burocrática ou política.
A lista tem funcionado como um canal de comunicação coletivo, livre e democrático, mas também como um instrumento administrativo da diretoria para informar sobre todo tipo de questão. Nessas condições, esteve e está sujeita a um tratamento público, sobretudo pela mídia, em aproveitamento similar ao que esta dá a praticamente todas as chamadas redes sociais, embora sejam a rigor canais de comunicação intencionalmente privados, protegidos por senhas e regulados em seu alcance "público". A lista não se dirige à opinião pública, aos cidadãos que formam a sociedade brasileira, como ente abstrato e como conjunto de indivíduos, e sim, em princípio, aos associados da ABPA.
Sabemos, no entanto, que os posts podem e se multiplicam nas "redes sociais" e podem e são reproduzidos como matéria na imprensa, grande, média, pequena, mas sempre claramente pública, em seu acesso pelo cidadão. Sabemos também o quanto uma prática antiga dessa mesma imprensa em citar comentários, opiniões, relatos, muitas vezes pouco objetivos, para não dizer meramente especulativos, transformando-os em matéria e "fato", se multiplicou ainda mais na era das "redes sociais".
Leio com atenção, algumas vezes apreensão e nas últimas horas desaprovação as manifestações levadas à lista no que toca à questão da Cinemateca Brasileira. Repito que a lista é um instrumento livre e democrático, mas que também implica ética e responsabilidade em todas as medidas, sobretudo a política. Me pareceu profundamente equivocado e interpretativo dizer que a crise da Cinemateca Brasileira chegou à FIAF (Federação Internacional dos Arquivos de Filmes). Para quem conhece os ritos da entidade como eu, soou completamente falso tal informação, pois o Comitê Executivo da entidade não se manifesta publicamente e por escrito em tais circunstâncias, salvo casos muito específicos e especiais. Não recebi, como membro da Cinemateca do MAM, uma afiliada da entidade, e não tomei conhecimento de nenhum documento público nesse sentido. Mais do que isso, em consulta inversa, a afirmação oficial é de que tal assunto não foi sequer tratado dentro do novo Comitê e nem há pauta futura sobre isso. Dar tal magnitude a um gesto (que alguns dos presentes ao congresso recém terminado em Barcelona afirmam nem ter acontecido), quando a entidade sequer considerou internamente o tema, beira a irresponsabilidade pela repercussão que isso pode ter no Brasil e pelo uso que se pode fazer disso como fator de pressão junto à classe cinematográfica, à imprensa, à opinião pública, nas "redes sociais" e principalmente entre nós mesmos. Poucos de nós lá estiveram e estes tem que ter responsabilidade em seus relatos, distinguindo fatos e pesando a repercussão política.
Como dirigente da ABPA tenho sido cobrado indiretamente pela lista e mais diretamente em e-mails, telefonemas e conversas presenciais, com relação ao tema e a um posicionamento de nossa entidade. Pode ser que esteja errando em não trazer a público um parecer sobre os eventos que vêm cercando o arquivo paulista desde a saída do antigo dirigente, mas creio que não houve até o momento clareza, maturidade e negociação política tão definidos em torno dos acontecimentos para que uma manifestação oficial de nossa parte pudesse vir à tona de forma embasada e como uma contribuição positiva aos problemas enfrentados pela entidade. O chamamento do Antônio Laurindo nesse sentido foi sensível e justo para com a necessidade de aprofundamento do debate.
É como uma contribuição a este mesmo debate que gostaria agora de me manifestar de forma mais pessoal, não transformando meus comentários em uma posição oficial da diretoria ou da entidade. São reflexões livres, de forma nenhuma posicionamentos, mas que visam construir uma perspectiva que almejo sólida para a questão não da Cinemateca Brasileira, mas da Preservação Audiovisual no Brasil. Digo isto porque me parece que uma distorção de base, entre muitas outras, se coloca neste ponto. Ninguém questiona a importância da Cinemateca Brasileira como entidade representativa de um patrimônio audiovisual, brasileiro e mundial, mas poucos parecem lembrar dos demais arquivos de filmes, de televisão, de vídeos e outros materiais audiovisuais, públicos e privados, espalhados pelo país e de seu peso dentro deste mesmo patrimônio. Segundo o próprio Secretário do Audiovisual, Leopoldo Nunes, tocando em determinado ponto em sua fala na Mostra de Tiradentes de 2013, há cerca de um milhão de rolos de filmes nos arquivos brasileiros, dos quais cerca de 300 mil guardados pela CB. Individualmente é o maior arquivo de filmes do país, mas representa apenas 30% do acervo existente. Foi em função desta realidade, negada com todas as forças pelos governos brasileiros anteriores desde a crise da Cinemateca do MAM em 2002 e particularmente pela direção anterior dessa mesma Cinemateca Brasileira, que foi se constituindo o movimento que culminou na criação da ABPA. Deve-se lembrar que o arquivo paulista proibiu em um primeiro momento a filiação de seus funcionários e colaboradores, e perseguiu e demitiu quem desobedeceu a tal indicação, como foi o caso de Fabrício Felice, hoje trabalhando na Cinemateca do MAM. Mesmo a ABPA representando parcela significativa da memória audiovisual brasileira, parcela ainda maior se lembrarmos que parte dos acervos depositados junto à Cinemateca Brasileira pertencem em verdade a esses mesmo arquivos rechaçados desde 2007, não houve manifestações no passado tão diretas e recorrentes na lista, denunciando ou comentando a política unilateral, atitude imperial ou perseguições. As demissões de funcionários, colaboradores ou PJs até 2012 passaram praticamente em branco. Mesmo depois da mudança de comando da instituição não houve adesão significativa de seus funcionários, agora em grande parte demitidos, à ABPA ou qualquer outra entidade ou sindicato que pudesse fazer valer eventuais direitos legais ou morais, ou funcionasse como instância de representação política. Não há obrigação neste sentido, mas representatividade e solidariedade política se constroem em conjunto, não de forma forma mais uma vez unilateral e de forma pontual. Mesmo assim, a ABPA pode e deve ser sensível à conjuntura atual e suas implicações.
Mas como agir?
Em política, pode-se agir livremente, criando todo tipo de fato e ação. Mas como diz o velho ditado, "aos inimigos a lei". Em qualquer campo ou atividade existe uma dimensão legal da qual cumpre tratar e desenvolver para não ser pego de calças curtas e não ver destruídos certas aspirações ou certos resultados. Cumpre fazer o dever de casa e não deixar este flanco aberto aos adversários. Mais do que isso, cumpre examinar exatamente do que se trata, de quem se apóia e do que se quer com isso.
Como cidadão posso me manifestar livremente, pontualmente, contraditoriamente. Como entidade, há uma responsabilidade em representar alguém, em nome de um determinado projeto, com determinada finalidade. Para mim, como cidadão e dirigente, a ABPA representa praticamente 70% do patrimônio audiovisual brasileiro e luta por melhores condições de preservação desses acervos, incluindo aí prioritariamente o reconhecimento legal da profissão e do profissional, e os ambientes de trabalho de todos aqueles que se dedicam às instituições que acolheram esses materiais.
Além disso, em se apoiando qualquer movimento por uma instituição há que se ter o cuidado de qualificar os interlocutores e os acontecimentos. Muito vem se falando sobre a crise da Cinemateca, mas há poucas informações seguras sobre o que ocorreu e ainda vai ocorrer de fato. Pedindo licença à Raquel Hallak, por divulgar um dos pontos da próxima CINEOP, lá acontecerá um encontro direto entre os membros da ABPA e dirigentes do arquivo, sem mediações da imprensa ou de terceiros. Dúvidas poderão ser esclarecidas, cobranças feitas e um posicionamento, se assim a Assembléia da ABPA o decidir, tomado. Tudo no tempo devido e na justa medida do bom senso. Sem afobações, arrivismos ou má-fé. E com maturidade política, pois ao lado disso, a ABPA tem muitas outras questões e reivindicações a fazer, com a prioridade que já indiquei acima. Maturidade essa que, por um lado, não nos deve fazer esquecer que quem responde diretamente pelos destinos da CB é o Conselho da entidade, órgão que referenda ou não até mesmo as decisões da SAv. Conhecer as intenções e posicionamentos do Conselho é respeitar legal e politicamente o processo envolvido. E por outro, considerar que as manifestações e documentos que têm vindo à tona em defesa da Cinemateca Brasileira tem se pautado pela mesma unilateralidade anterior. Apesar da fragilidade demonstrada agora, como fruto de um modelo de gestão equivocado desde a origem, ao teimar em não fortalecer a estrutura, dentro de um quadro extremamente dependente de recursos públicos e ao sabor das mudanças políticas, algo que sempre foi uma fraqueza do setor no mundo inteiro e contra o que diversas cinematecas lutaram, forçando uma institucionalização de determinada estrutura de guarda, conservação e acesso, esse ponto é recorrente e se mantém como um mantra. Lygia Fagundes Telles chegou a escrever logo no início da crise que com a luta (de quem?) a CB seguiria viva, "cumprindo o seu glorioso destino: o de ser o único museu vivo de Cinema Nacional" (sic) (grifos meus). Ou na petição que circula em tempos mais recentes afirma-se mais sofisticadamente a preservação "da própria integridade da memória audiovisual brasileira" (novamente grifo meu) como natureza ontológica da entidade. Para quem participou de reuniões do SiBIA, ouviu antigos secretários e outros dirigentes do setor audiovisual ou simplesmente esteve em eventos com quem comandava a Cinemateca até bem pouco tempo, como a grande maioria dos membros da ABPA, essa retórica já é velha conhecida, não tendo mudado nada, mesmo com a atual crise. Uma velha ordem que teima em não mudar e cujas origens podem ser conhecidas na dissertação de mestrado de José Quental. Se há algo a se examinar é o esgotamento desse discurso e seu corolário político, a centralização de poder, de recursos e de acervos, assim como o fato de que ele se apóia em uma falácia, a de que "tudo" está lá.
Tenho falado e escrito de tempos em tempos sobre algumas obviedades - o tamanho do país, o direito de toda a população a ter acesso a todos os arquivos, a necessidade de implantarmos parâmetros estruturais de guarda e trabalho mínimos em todas as instituições, e a quimera, para não dizer a sandice, de concentrar tudo em um lugar só, indo contra o movimento mundial, que prescreve exatamente o contrário, entre outras coisas -, e é minha sincera crença de que tudo isso é mais positivo para a preservação audiovisual brasileira do que o contrário. Mas nada se constrói só com idéias ou voluntarismos ou de forma unilateral. Temos que caminhar como grupo, como rede, como setor, desejando e lutando para que a Cinemateca Brasileira esteja ao nosso lado, como parceira e agente fundamental que é, mas nunca esquecendo quem somos e pelo que lutamos prioritariamente.

Cordialmente


Hernani Heffner

4 comentários:

João Carlos Rodrigues disse...

Creio ser este o documento mais claro (e também esclarecido) sobre a chamada "crise da Cinemateca Brasileira". Eu assinei o manifesto dela, menos por apoiar totalmente suas pretensões, mas por discordar de uma intervenção direta do governo na sua administração interna. Ainda não me arrependi totalmente, mas quase. Em artigo publicado dois anos atrás pela mostra do Festival de Ouro Preto, eu já lembrava que a FIAF recomenda que as matrizes não estejam todas concentradas num só local, então não há como concordar que a FCB deva ser o único local a poder guardá-las, mesmo que eventualmente seja o mais aparelhado. Não há porque o acervo dos vários estados ser transferido para São Paulo e não preservado perto do seu local de origem, à disposição da comunidade que o produziu e pagou por ele. As dificuldades impostas pela FCB à correção desta distorção são muitas, a começar pelo seu silencioso boicote ao depósito climatizado iniciado pelo falecido Gustavo Dahl no CTAV e que, anos depois, ainda não foi terminado. Defender a Cinemateca de seus inimigos, tudo bem. Defender a pesquisa e a preservação do cinema frente aos exageros da própria Cinemateca me parece tão ou ainda mais importante.

Anônimo disse...

Está longe de ser o texto mais coerente e esclarecido. Eu sou de Porto Alegre, e para mim este texto foi escrito por um carioca barrista e ressentido, porque só cita a Cinemateca do MAM! Nem ao mesmo cita a Cinemateca de Curitiba e outros importantes acervos audiovisuais que existem neste país. Isso porque há membros da ABPA em Goiás, Rio Grande do Sul, Paraíba.Mas neste texto não cita nenhum outro estado. Acho que ao invés criticar a Cinemateca Brasileira por estar em SP. Vocês deveriam pressionar o Ministério da Cultura, para que ele possa descentralizar este acervo. A Cinemateca Brasileira, está em fragalhos e se continuar nesta situação não vai existir estes 30% que o Hernani se refere(aliás esse número é um achismo, porque não achei documentado em nenhum relatório, além de um discurso do secretário do audiovisual).Ninguém nunca criticou a Biblioteca Nacional por concentrar todos os livros num só lugar. E aquele lugar está caindo aos pedaços. Claro que a reforma já foi aprovada e tudo mais. Mas e se aquele belíssimo acervos de livros, periódicos, iconografias pegar fogo? O que será do patrimônio intelectual brasileiro? Ele fala da Cinemateca Brasileira e do MAM, mas esquece do resto. A verdade que nenhuma dessas instituições tem poder, só o Governo tem. Sem pressionarmos o Ministério e SAV, os acervos serão reduzidos a pó.

Assinado
Guido Alievi

Frederico Neto disse...

Meu caro Guido Alievi, em uma coisa você acertou, o Hernani é carioca.

De resto, errou o alvo e só falou groselha. Não entendeu o texto e fez um comentário que me parece sem ressentido. Seria equivocado um gestor de acervo ao pedir licença para falar da sua experiência e posição pessoal citar outros acervos dos quais até tem um contato, diálogo ou parceria, mas que de fato não gere. Se existe uma crise na Cinemateca Brasileira ela é institucional, pois nunca se deixou institucionalizar e se seguiu o modelo de uma OS gerindo um aparelho público como se fosse privado.

João Carlos Rodrigues disse...

A FIAF recomenda que um acervo não deve concentrar tudo, pela eventualidade de um incêndio, uma inundação, um bombardeio, uma erupção vulcânica, um acidente enfim. Por uma questão de segurança. Não vi nada no texto do HH que apoie a concentração, pelo contrário. A Cinemateca Brasileira é contra a criação de cinematecas estaduais, e também não procura criar depósitos climatizados regionais sob a sua supervisão (outra solução para o problema). O que se fez e ainda se faz contra a obra no CTAV não é brincadeira, digo isso porque trabalhei lá no tempo do Gustavo Dahl, quando a obra começou, quatro anos atrás ou mais. Esse é um problema. O segundo é uma política de recuperação de matrizes, que a FIAF tb recomenda que sejam em película, pois não se sabe ainda quanto tempo pode durar uma matriz digital e também se vai poder ser lida pelos aparelhos de amanhã e depois de amanhã. O terceiro é dinheiro para recuperar filmes (todos os que sobraram, independentemente de sua importância estética ou histórica - isso o futuro analisará). O quarto é catar entre colecionadores particulares cópias de filmes dados como desaparecidos (existem muitas) para tentar-se recompor na medida do possível a filmografia brasileira. Sem dúvida a Cinemateca Brasileira deve encabeçar isso. Mas uma ajudinha regional não vai atrapalhar nada, pelo contrário. A FCB já pisou na bola antes (negativos de "Rio 40º" e filmes do INCE, sob sua tutela, perdidos) e parece claro que não tem condições de levar adiante essa tarefa sozinha. Mas não é inativa, pelo contrário. Vejam seu Relatório de Atividades 2012, está no saite dela. Ali se trabalha, quando não se atrapalha.