segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O manifesto de Lindgren: O curador de filmes do futuro

Este é um polêmico manifesto proferido por Paolo Cherchi Usai em 24 de agosto de 2010 que suscitou um intenso debate. Publicado em Journal of Film Preservation, n. 84, abr. 2011.

1 - Restauração não é possível e nem é desejável, independente de seu objetivo ou razão. A obediência a esse princípio é a abordagem mais responsável para a preservação de filmes.
2 - Preservar tudo é uma maldição para a posteridade. A posteridade não ficará grata por uma acumulação desmedida. A posteridade quer que nos façamos escolhas. Logo, é imoral preservar tudo; selecionar é uma virtude.
3 - Se o filme tiversse sido tratado apropriadamente desde o início, haveria muito menos necessidade para sua preservação hoje e os cidadãos teriam acesso à história do cinema que escolhessem.
4 - O fim do filme é uma boa coisa para o cinema, tanto como arte quanto como artefato. Parem de chiar.
5 - Se você trabalha para uma instituição cultural, faça conhecimento com dinheiro. Se você trabalha para a indústria, faça dinheiro com conhecimento. Se você trabalha para você mesmo, faça ambos, desde que seja o certo para você. Decida o que você quer e depois diga. Mas não minta.
6 - Um bom curador nunca reinvindica ser um curador. Curadoria não é sobre o curador. É sobre os outros.
7 - Transformar grãos de prata em pixels não é certo ou errado per se; o problema real com restauração digital é a falsa mensagem de que as imagens em movimento não tem história, sua falsa impressão de eternidade.
8 - Digital é um meio em perigo e a migração é sua doença terminal. O digital precisa ser preservado antes de sua morte.
9 - Nós estamos fazendo imagens constantemente; nós estamos perdendo imagens constantemente, como qualquer corpo humano gerando e destruíndo células no curso de sua vida biológica. Nós não somos conscientes disso, o que é bom e inevitável.
10 - Saber que uma causa é perdida é uma boa razão para não lutar por ela.
11- Um curador de filmes deve procurar por escolhas necessárias, com o objetivo último de torná-las desnecessárias.
12 - Os governos querem economizar e não dar dinheiro. Ofereça a eles soluções econômicas; logo, explique a eles porque o dinheiro que dão para digitalização em massa é desperdiçado. Dê a eles melhores opções. Tratando com o máximo cuidado o que sobreviveu. Melhor ainda, não fazendo nada. Deixe as imagens em movimento viver e morrer em seus próprios termos.
13 - Honre sua experiência visual e rejeite a noção de "conteúdo". Proteja sua liberdade de visão. Excercite a desobediência civil.
14 - Esteja atento que o mundo não está interessado em preservação de filmes. As pessoas podem e devem ser capazes de viver sem cinema.

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